As pessoas são turquesa

{ quarta-feira, 10 de dezembro de 2014 }
É engraçado pensar em como as pessoas surgem em nossas vidas. Mais ainda, é curioso entender o porquê delas permanecerem: afinidades, interesses em comum ou, simplesmente, um afeto muito grande que une corações. Talvez, desígnios do Alto que fogem ao nosso entendimento... Costumo dizer que nada é por acaso e a vida me faz acreditar nisso todos os dias.

Como acontece em cada mudança de ciclo, faço um balanço sobre as oportunidades que o Universo me deu, digerindo o que passou e fazendo das experiências o combustível para me tornar uma pessoa melhor. Oro, agradeço os caminhos floridos e também os percalços, agradeço aos que estiveram próximos, me amando sem reservas e deixando que eu os ame do mesmo jeito.

Nesta semana em que acordei olhando para o mar, aproveitei o deslumbrante espetáculo das águas turquesa caribenhas para algumas associações: todos nós nos mostramos ao mundo exatamente como elas. Na beira da praia, o oceano turquesa-claro é como aquela pessoa que pouco conhecemos, mas que cintila em nossos olhos, nos levando a admirá-la por aquilo que enxergamos: uma transparência rasa e cômoda, sem grandes novidades ou riscos. 

Mais ou fundo, a água muda de cor e a pessoa turquesa-médio é aquela que já conhecemos há algum tempo, sabemos bem sobre suas belezas vivas e coloridas vistas a olho nu e, mais lindas ainda, se formos deixados mergulhar em seu ser. Neste estágio, sabemos onde pisar – ou nadar – pois já existem alguns fatores de risco que, mesmo não passando despercebidos, conseguimos compreender e até relevar.

Por último, as pessoas turquesa-escuro, essas sim, aquelas que convivemos todos os dias e que, mesmo que apresentem dificuldade para serem desvendadas, sabemos que basta paciência e coragem para a desbravarmos. E é lá que se encontra a mais estonteante beleza, aquela que só quem vai bem a fundo sabe identificar. Formas, cores, brilhos, movimento, vida... É uma admiração gigantesca, como as profundezas daquele mar. No entanto, é lá também, lá no fundo bem fundo que se camufla uma mescla de situações e elementos que nem sempre são agradáveis para nossa convivência – coisas que se não tivermos sabedoria para desviar, podem até nos machucar.

É neste último estágio que definimos o amor pela nossa família e pelos nossos amigos mais próximos. A beleza é relativa para cada um mas quando conseguimos enxergá-la além da superfície, no fundo do ser de alguém, é porque encontramos afinidades que não se destroem com o tempo. E, indo mais além, quando enxergamos na profundeza de cada um todos os desconfortos efetivos daquela relação e, mesmo assim decidimos estar ali, o amor já nos mostrou que tudo vale a pena.

Crônica dos pés gelados

{ terça-feira, 15 de abril de 2014 }
E, numa madrugada fria de inverno, ela acorda mais esparramada que das últimas vezes. Despertou com os pés gelados, descobertos. Sempre sentiu frio nos pés, mesmo em dias de verão quando a brisa vinha mais gélida, mas, naquela noite, faltava mais que uma meia, mais que um cobertor.

A cama parecia agora ser ideal para seu corpo que, pela primeira vez, descansava de verdade, desimpedido nos lençóis. Engraçado que ela era pequena, mas gostava de espaços não-delimitados, característica de sua personalidade livre segundo o zodíaco; contraditoriamente tão livre que adorava a sensação de se sentir livre mesmo estando apaixonada.

O frio em seus pés percorreu todo seu corpo quando se viu naquela realidade que não buscara, mas que fora obrigada a tomar como sua.  Enquanto tratava de se aquecer, o sono ia de vez embora, num despertar forçado e envolto em lembranças de uma época que ela sentia saudade, mas que não cabia mais naquele quarto que já foi tão feliz.

Grandes eram seus sonhos. Tão grandes que quase não cabiam em seu minúsculo esqueleto leve e frágil. Seu poder de criar futuros felizes era tão imenso quanto o de ter que reformá-los conforme as circunstâncias da vida. Jovem e bela, não costumava se deixar abater, sempre com seu sorriso grato, mas naquela noite ela merecia o luto de enterrar suas memórias mais lindas. E chorou baixinho, de frio e de pena de si mesmo.

Exausta de brigar com o travesseiro, abriu a janela, acendeu um cigarro de menta e pediu conselho para as poucas estrelas encobertas pelas nuvens escuras, mas elas brilhavam pouco e não estavam pra conversa.  A cama quente a esperava com mais compaixão.

A noite passou, dolorida de frio. Ou apenas dolorida. E o amanhecer chegava explicando com doçura que um dia tudo ficaria escondido na noite escura, sem que ninguém, nem ela mesmo, pudesse se dar conta. Mesmo que ela ainda precisasse usar meias.

Dia Mundial da Síndrome de Down

{ sexta-feira, 21 de março de 2014 }
Minha mãe conta que desde pequena sempre falei que seria Jornalista. Mas, me lembro que na adolescência, fase de mudanças, várias outras profissões me encantaram. Pensei em Medicina, mas aí me lembrei que detesto sangue. Pensei também em fazer Direito, pois era o máximo a possibilidade de eu me tornar delegada, ser casca grossa e botar medo na bandidagem, porém, estudar aquele tanto de Lei me deu preguiça. Também cogitei ser veterinária por meu amor aos bichos, mas não iria aguentar ver cachorro sofrer e, portanto, desisti. Amava Arquitetura, mas, por sua vez, detestava números; gostava de Decoração mas acabei estudando por conta própria; adorava Moda, mas não tinha dinheiro pra comprar nem uma calcinha com meu salário de miséria. E por aí vai.
A que mais me deixou balançada e que foi uma concorrente de peso para Comunicação Social foi a Terapia Ocupacional. Na época, convivia com o Felipe, menino doce, inteligente e muito amado. Ele nasceu com a Síndrome de Down. Felipe me despertou um amor imenso e comecei a pesquisar sobre sua condição e uma forma de eu poder ajudar crianças especiais. Acompanhava com admiração a jornada de sua mãe, muito jovem e com uma força tremenda, que fazia o possível e o impossível para ajudá-lo a vencer as limitações, sempre com um sorriso de gratidão no rosto por tê-lo em sua vida.
Felipe participava de vários tipos de cursos e acompanhei boa parte de seu desenvolvimento na infância e de suas grandes conquistas e cada vez que ele falava meu nome com aquela alegria gostosa ao me ver, meu carinho aumentava – e nos abraçávamos com grande afeto. Eu era a “Iva” dele.
A vida da gente muda e segui caminhos diferentes do Felipe e, mesmo não o vendo por muito tempo, sempre pensei naquele menino com imensa ternura. Não cursei Terapia Ocupacional, pois acabei optando pela profissão que sempre quis trabalhar desde pequenininha, quando falava pelos cotovelos e encenava reportagens com os bichos de pelúcia. O engraçado é que foi a Comunicação que me levou de novo a ter contato com Felipe, pois hoje, minha empresa presta serviços para a mãe dele.
Sei que Felipe, aquele menininho divertido e sorridente, virou um homem lindo, extrovertido, com uma vida social de dar inveja e se supera todos os dias, contando com o respaldo e a paixão infinita de seus pais e irmão. E a minha afeição só aumenta por todas as famílias que ganharam essas crianças especiais e as têm como elas realmente merecem ser definidas: verdadeiros presentes da vida –  e nos mostram que com amor, os obstáculos diários ficam fáceis de serem vencidos.

Comunicação

{ domingo, 2 de fevereiro de 2014 }
- Gostaria de ter você mais próximo.
- Mas estou aqui, a 2 metros, no sofá.
- Próximo de corpo e alma, não me venha com ironia.
- Você está me prendendo, me sinto sufocado.
- Faz dias que não para em casa.
- Hoje estou em casa. Contente-se. Fiz o que me pediu.
- Essa obrigação em estar comigo me mata.
- Oi? Desculpa, tava lendo um negócio aqui.
- Você anda distante. Eu preciso de você.
- Eu preciso comer, estou com fome.
- Então por que não conversamos antes?
- Não tenho paciência.
- Não fala desse jeito. Me magoa.
- To cansado.
- Do que?
- Melhor terminar tudo.
- Mas mal começamos.
- To decidido.
- Ok, você tem razão, não temos mais jeito mesmo.
- Por que não temos mais jeito?
- Por que agora eu decidi.
- Mas mal começamos.
- Melhor terminar tudo.                                             
- Não fala desse jeito. Me magoa.
- Não tenho mais paciência.
- Vamos sair pra almoçar e daí conversamos.    
- To sem fome.
- Você é muito caseira, ta vendo?
- Ontem almoçamos com seu chefe, anteontem, jantamos com seus pais.
- Mas fez por obrigação.
- Oi? A panela de pressão não me deixa ouvir.
- Quero ser feliz com você. Não me venha com ironia.
- Sem ironias. Fiz a rabada que você me pediu ontem. Daqui a pouco pode se servir.
- Gostaria de ter você mais próxima.
- Então levanta do sofá e vem lavar a salada.



Urgência

{ quinta-feira, 16 de janeiro de 2014 }
Seus corpos uniram-se pela primeira vez na praça da pequena cidade. Embaixo das bandeirolas, em uma noite de festa, ele a viu, com seu batom vermelho manchando o filtro do Marlboro.  Não tinha mais idade para os disparates físicos do amor: suas mãos não tremeram e seu estômago não gelou. Mas sentiu que seria ela que reavivaria sua alegria inerte há tanto tempo.
Foi ali que passara sua lua de mel, há quase 30 anos. O lugar não saia de sua cabeça desde a morte de seu par, há tempo suficiente para voltar, enfim, a sorrir.  Não tinha grandes pretensões quando largou tudo pra viver onde foi tão feliz. Só queria estar mais perto de um passado que não voltaria.
Até que ela, só ela, despertou nele o desejo de ser 20 anos mais novo. De nunca ter tido um pelo branco no peito. De jamais ter broxado. De seu Maverick preto impecável não ser uma relíquia, assim como ele, conservado, porém indiscutivelmente velho.
Mesmo inseguro, não hesitou.  Viu-a de costas, cabelos encaracolados despretensiosamente semipresos com grampos, cintura fina e bunda farta. Sua gargalhada, por mais espontânea que parecesse, escondia uma tristeza como a sua, já arraigada naquele 1,60m de mulher. O que teria se passado com ela? Querendo desvendá-la por inteiro, não resistiu: tocou em seus quadris e sussurrou ao pé daquela orelha bem desenhada, com o tom mais sacana que conseguiu.
- Dançaria com você até amanhã cedo. Aliás, com você, faria qualquer coisa até o amanhecer.
O bafo quente na nuca se misturou com a brisa calorosa daquela noite de verão. Ela jogou o cigarro no chão, pisando em cima em seguida, deixando em evidência seu lindo pé com dedos compridos e unhas vermelhas.
- Eu não durmo cedo mesmo!  – ela responde sem ao menos olhar quem estava segurando sua cintura, com mãos grandes e firmes. Virou-se, para espanto dos amigos e juntou-se ao homem mais velho, seguindo ordens de uma sensação angustiante que atormentou seu corpo. Sentiu-se plena ao olhar os olhos tristes daquele homem. Experimentou a proteção vinda de um desconhecido e ali fez seu abrigo, que não tinha em casa, distante daquele lugar.
 Dançaram e, por fim, amanheceram juntos, longe da inocência das bandeirolas. Não trocaram nomes e nem confidências; permutaram desejos urgentes de paixão e zelo. Naquela manhã praiana, seus corpos se uniram pela última vez na praça da pequena cidade em uma despedida que exalava amor e gratidão. Nunca mais se viram, mas sorriem verdadeiramente quando lembram um do outro.

2014

{ segunda-feira, 6 de janeiro de 2014 }
Hoje começo oficialmente meu ano de 2014. Por enquanto, a execução de planejamentos de fim de ano foi substituída por dias quentes de sol e piscina – graças ao bom Deus, moro em uma cidade que me realiza nesse sentido, oferecendo calor de gente e de clima.
No auge da ociosidade de meros 10 dias, revisitei meu passado não tão distante e tudo o que 2013 me proporcionou: novos clientes, novas amizades, novos lugares, novas oportunidades de trabalho e um novo estado civil, que veio junto com um novo canto só nosso e uma nova rotina gostosa de viver. Deixei as planejadas aulas de inglês de lado, mas consegui me firmar na academia durante a maior parte do ano, cuidando mais da minha celulite que da minha sanidade. Iniciei um curso de corte e costura que não foi muito além, pois minha impaciência autodidata para serviços manuais sempre fala mais alto. Fiz cursos na minha área, mas não tanto quanto minha mente poderia absorver.
Apesar dos planos, não consegui criar a rotina de visitar asilos. Não cortei meu cabelo chanel, não fui ao teatro uma única vez, não fiz a dieta da proteína e ainda não li Memórias Póstumas de Brás Cubas, acreditem.
Em 2014, feito a propaganda de fim de ano da Globo, ganhei um empenho entusiástico em renascer, em renovar. Talvez, os 33 anos façam isso com algumas pessoas. Terei, a partir de hoje, 360 dias para me planejar, como faço com minha rotina de trabalho no calendário do Outlook e nas planilhas em Excel e, finalmente, conseguir ler mais, assistir (de novo) a trilogia do Senhor dos Anéis, iniciar outra pós-graduação, ser voluntária, fazer quantos cursos couberem na minha agenda, viajar para Paris, entrar prum grupo de corrida, estudar novas línguas, não tomar Coca-Cola, dar uma chance para Lars Von Trier, tomar mais sol, cozinhar pratos novos, guardar mais dinheiro, escrever mais no blog, ser mais presente em minha religião , lutar karatê, mudar o cabelo, ser mais tolerante, dizer menos sim, dançar tango e encomendar meu rebento.
Em algum momento da vida, ouvi que os sonhos só se tornam realidade quando você impõe data para realizá-los, senão, não passarão de desejos vagos e inatingíveis. A meta é fundamental também para nossa satisfação pessoal e, por isso, tenho que começar ontem a correr atrás de anseios que cultivo desde pequena ou adolescente. No entanto, a vida é tão brilhante e uma dádiva tão grande que ela nos surpreende todos os dias, nos realizando sonhos com antecedência ou que nem imaginávamos que tínhamos.
Quando iniciei o ano passado, não pensei que encerraria aquele período com uma aliança na mão esquerda – nossos planos eram outros, mas essa escapada do planejamento fez de 2013 um dos períodos mais especiais da minha vida. 

Começo hoje torcendo para que em 2014 consigamos realizar boa parte do que desenhamos para os próximos dias e meses. E também, que nos reserve surpresas inesperadas, drásticas e repletas de felicidade. Se for para sairmos dos trilhos, que seja sempre por uma boa causa.

A estranha relação entre o casamento e as calorias

{ sábado, 16 de novembro de 2013 }

Um fato importante que todos precisam saber: casar engorda. Talvez porque você troque a estressante e corrida vida de baladas por restaurantes a meia luz. Também existe a possibilidade de que antes você vivia apenas de cerveja e Cheetos Requeijão e hoje você conhece de cabo a rabo os menus completos do Keeki ao Rei da Coxinha. Quem sabe também o motivo seja aqueles churrascos de antes em que só serviam frango – que é super light e te ajudava na dieta forçada – e hoje você participa ativamente de rodízios completos mensais argentinos porque essa obrigatoriedade está no manual dos pares.
Me lembro de já ter começado a engordar durante os preparativos do casório, ou seja, só de falar em casamento, minha bunda, feito mágica, encheu de celulite – o que demonstra que a associação entre casar e ganhar peso vai muito além do entendimento humano. Dá-lhe muita academia e drenagem linfática pra não precisar usar uma calcinha bege que cobre até as costelas durante o dia mais importante da minha vida.
Na Lua de Mel, outro fato é importante de ser dito: come-se muito – inevitável o duplo sentido. Sempre te indicam os restaurantes mais badalados, todos os dias, independente de quanto tempo você esteja por lá – e eu não consigo me revoltar com isso porque, afinal, onde há comida, há diversão. E você, com resignação, segue seu destino ultramegacalórico sem pensar nas consequências. O amanhã, minha cara, é logo ali, na volta à realidade...
O retorno da lua de mel é a cereja do bolo: o casal costuma estar naquele momento de adaptação e, se ainda estiver de férias, pedir uma pizza, um lanche, um japa ou uma panqueca ao molho bolognesa para não ter que cozinhar, faz parte dos planos três ou quatro vezes por semana. Voltando à rotina de trabalho, com a correia do dia-a-dia somada à readaptação da vida nova, gororobas continuam sendo a melhor opção - e você que é solteira é bom não julgar, fía. Sua vez chegará. Essa é minha vida após quase um mês em que me tornei uma senhora.
Mas uma coisa eu e meu culote garantimos: mais vale dois companheiros curtindo juntos a delícia que é essa fase de engorda do que transformar momentos intensos de apreciação gastronômica em horas desnecessárias de culpa. Minha dica é: aproveitar tanto o casório, quanto o prato do dia pois ambos são uma delícia. Quanto os pneus que sobram, deixe para cuidar deles na segunda-feira que vem.




Minta para mim

{ sexta-feira, 6 de setembro de 2013 }

Quando assistia esporadicamente à série de Samuel Baum, Lie to Me, na Fox, não imaginava que um dia, pós-abençoada Netflix, ficaria tão vidrada nos sinais da mentira. A série, cujo (anti)herói é o psiquiatra Cal Lightman, me desperta mais do que curiosidade sobre os curtos-circuitos que nosso corpo rebenta com lorotas, mas também uma certa ansiedade para desvendar vestígios de omissões tanto na série quanto na vida real, porém com subsídios científicos. Lightman é contratado pelo Governo para ajudar em casos delicados do FBI.
Obviamente, não dá para levar a ferro e fogo os sinais caricatos da série, mas estes são referências para que seres humanos mais observadores possam distinguir uma verdade, uma mentira por trás da verdade ou, simplesmente, uma mentira. Existem centenas de livros que abordam as expressões corporais - já li alguns - mas Lie to Me vai além: ensina que as microexpressões fornecem indícios de conversa fiada para boi dormir: pupilas dilatadas, lábios apertados, sorrisos falsos, sobrancelhas arqueadas.
Li que o mocinho rabugento da série foi inspirado num cientista, o psicólogo americano Paul Ekman, que provou que as expressões faciais são componentes da natureza humana e não reflexo da cultura de cada povo, ou seja, somos todos iguais na mentira – uns se saem melhores que os outros, óbvio, e acho que até isso se encaixa no que sugere a Lei de Darwin.
E outra coisa: todos nós mentimos, sem exceção. Mentimos para nos proteger, para proteger o próximo, para não nos expormos ou simplesmente porque queremos  mentir naquele momento e dane-se. E quando mentimos, nosso corpo borbulha involuntariamente e denuncia as emoções reais por trás de um discurso fajuto. Nosso físico não foi programado para mentiras. Nosso cérebro denuncia nossas pantomimas pois não foi programado para "lembrar" de algo que não é real. Nesses casos, Lightman é como um Dr. House, porém, um detetive diagnosticando lero-leros.
É sabido que não existem técnicas 100% confiáveis para detectar mentiras. Nem o polígrafo é tão eficiente. Nem uma vidente porreta teria esse dom espetacular de acertar na mosca cada bazófia. O cientista da série mesmo cai na maioria das engrupidas da filha adolescente. Porém, já bastante avançada na segunda temporada, ainda não vi nenhum menção ao sexto sentido feminino para mentiras – tirando nossos momentos de fraqueza em que apegos emocionais de qualquer espécie podem avariar nosso radar – nós mulheres temos lá uma sabedoria instintiva para detecção de balelas, seja lá por quem forem proferidas, né não? Talvez por isso, o tema tenha me atraído tanto; como diz a sabedoria popular: de vez em quando é importante que todos nós nos façamos de mortos para poder traçar o fiofó do coveiro.

Cinco anos da nossa princesa

{ quarta-feira, 8 de maio de 2013 }



Lembro até hoje o dia que soube que ela viria ao mundo. Na verdade, depois de papai e mamãe, fui a primeira a saber. Ainda não tinha ciência que era uma menina, mas já torcia para que fosse. E quando realmente tive a certeza, chorei de alegria - e comprei seu primeiro sapatinho.

Seria tia pela sexta vez e já deveria estar acostumada com essa emoção de amor gigante, mas no caso dela foi diferente. Pela primeira vez seria tia com idade coerente para assumir essa função tão especial - e não uma tia-prima-irmã-amiga que brinca junto e chora quando a sobrinha arranca a cabeça de sua boneca preferida.

Lembro da emoção de tia boba de quando ela nasceu. Desmarquei compromissos e fiz plantão no hospital. Babei na primeira fotinha que aparece aos visitantes da recepção – não só por ser coruja, mas porque realmente era um dos bebês mais lindos que já tinha visto.

A nossa princesa faz hoje 5 anos e continua linda, delicada, vaidosa, inteligente. A única criança que conheço que, além de mim em miniatura, prefere ganhar roupa bonita ao invés de brinquedo. Tenho orgulho por ela admirar a tia perua, adorar os meus esmaltes e pedir colinho quando me vê. E adoro saber que ela puxou a mim também no sorrisão - o outro único bocão da família Komar.

Maria Fernanda, a titia te ama. Parabéns e que seu caminho seja cor de rosa e cheio de brilhos, do jeitinho que você gosta.

Corte, costura e vida radical

{ quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013 }

Ok, podem me recriminar. Mal comecei as aulas de corte e costura e já precisei “colar” na primeira avaliação. Pensem bem: como alguém consegue ter habilidade pra fazer com que três linhas se encontrem numa mesma costura assim, de primeira, sem nunca ter pregado um botão na vida?

Pra começo de conversa, já estou frequentando o curso como se fosse pra guerra e isso me limita um pouco. Quem falou que futebol americano é uma atividade perigosa não sabe o risco que estou correndo: não posso ir de cabelo solto, pois a máquina pode me escalpelar. Nada de penduricalhos que podem me deixar presa e agonizante na agulha. Sapato aberto nem pensar visto que um alfinete ou tesoura podem fazer meu pé sangrar até a morte. Meu uniforme: jaleco, óculos protetores, dedal e muita coragem.

Quarta-feira foi minha segunda-aula do curso, aquela de apresentação dos equipamentos e, eu e a Mayara, minha sobrinha e companheira de classe, caímos com a máquina que afirmam ser a mais fácil, mais usada para tecidos retos, como algodão e jeans. Mesmo assim, me senti como que atravessando duas montanhas por meio de uma corda bamba e, a qualquer deslize, ao invés de me esborrachar, receberia um zero da professora, o que seria bem humilhante.

O primeiro carretel, você faz um caminho de bêbado com a linha: passa no buraco de trás pra frente, de novo, de trás pra frente, de cima pra baixo, repete a operação, prende na roldana, passa pelo pininho, prende no ganchinho, desce em outro gancho, sobre pro outro, desce pra outro pininho, prende na alça e, enfim, passa pelo buraquinho minúsculo da agulha. Acho que é isso e até aí, tudo bem: sempre fui rápida em aprender e decorar as coisas - mesmo porque, desde sempre, gosto de acabar a tarefinha logo pra poder conversar mais.

O segundo carretel, da costura de baixo, é mais simples, apenas uns quatro procedimentos. O terceiro é que o bicho pega: usar a joelheira para subir a agulha, colocar o carretel no sentido horário com a alça virada pra mim e a linha pendurada por baixo da máquina. Juro que de forma mágica, depois que numa total ação de coordenação motora usando minha mão como direção e meu pé como embreagem, as duas linhas deveriam se encontrar lindamente.

Não é possível que eu não consegui fazer isso. Uma, duas, três vezes... nada! As linhas estavam inimigas, de vendeta, tipo Israel e Palestina na Faixa de Gaza. Me apeguei na esperança de que a máquina estivesse com defeito e pedi ajuda à colega já costureira que de prima fez o último procedimento num tapa e pude mostrar à professora, enfim e cansada, a operação finalizada para poder ir embora pra casa totalmente frustrada. Juro que nem no gerenciamento de crise mais difícil da minha carreira me senti tão intimidada como naquela hora.

Me senti culpada. E descoordenada. Fora isso, estou adorando o curso e sei que loguinho comprarei minhas máquinas e farei das linhas e agulhas mais um hobby divertido – e radical. Vou mantendo vocês informados sobre os próximos acontecimentos. Enquanto isso, acho que vou utilizar meu horário de almoço na caça de uns bons tutoriais para não fazer feio na próxima aula. Afinal, fui incumbida pelo meu noivo de costurar seus próximos ternos e ninguém vai querer ver o Gustavo de calça pula-brejo nem de camisa com o bolso na costela. Né?