A Casa da Árvore

{ sexta-feira, 23 de julho de 2010 }
Sinto muita saudade dos meus tempos na TV! O amigo Luciano Tolentino, cinegrafista, desenterrou essa matéria do baú do Clube Verdade (Band), do jornalista Wilson Toni, e publicou no Youtube na noite de ontem. O editor foi o meu irmão, Sérgio Komar.
Fico triste por não ter guardado matérias minhas, então, essa aí, de uns 10 anos atrás, foi um grande presente!
A pauta foi muito divertida de fazer! Vocês vão saber o porquê.

Enjoy!

Com que direito?

{ quinta-feira, 22 de julho de 2010 }
Hoje cedo, li uma notícia no Jornal Tribuna, de Ribeirão Preto, que me deixou consternada. Um grupo de jovens de uma corrente da Igreja Católica esteve ontem à noite fazendo uma passeata no Centro da cidade protestando com faixas e cartazes contra o aborto, a união gay e a legalização das prostitutas.
Respeito a liberdade de expressão e protestos são legítimos, mas não podemos nos esquecer que a nossa liberdade termina quando começa a de outro. Não escrevo com o intuito de detalhar minha opinião sobre qualquer um dos três temas por eles proscritos, que, aliás, não consigo imaginar de que forma possam prejudicar o rumo de uma coletividade. Resumo dizendo que homossexuais têm o direito e o dever de buscarem a felicidade, têm de ser respeitados, mesmo numa sociedade infelizmente ainda preconceituosa, em que alguns membros se julgam modelos a serem seguidos. E o aborto é um assunto que tem de estar livre das amarras religiosas, dizendo respeito somente à gestante.
Estamos no século 21 e não podemos nos prender a imposições religiosas como a proibição do uso do preservativo, por exemplo, que também esteve em pauta no protesto. O sexo fora do casamento existe e seria uma calamidade se não houvesse campanhas para as pessoas se protegerem. Ninguém vai conseguir eliminar a promiscuidade ou a prostituição – que aliás sempre existiu desde que o mundo é mundo – com uma varinha mágica e água benta. Portanto, informação e prevenção são necessárias, muito mais que discursos inflamados sobre moral e bons costumes.
A Igreja Católica desde os remotos tempos, vem dado mostras de intolerância, tendo sido, na Idade Média, o grande berço da Inquisição, responsável pela morte de milhares de supostos hereges – pensadores, cientistas, idosas solteiras, etc. – que não rezavam a cartilha da Instituição. Essa mácula perdurou, mesmo que de forma mais branda, até o século 19, porém, ainda hoje, tenta impor seus mandamentos próprios de maneiras severas e terrorismos psíquicos, para isso, enfatizando os males dos supostos pecados. O perdão, portanto, seria utópico.
A Igreja, no entanto, vem passando por uma crise nos últimos 10 anos, perdendo fiéis no país para outras religiões, sem contar os que se tornaram agnósticos ou totalmente céticos. Os casos de pedofilia envolvendo padres têm prejudicado a imagem da Instituição visivelmente, despertando a ira da sociedade e colaborando sobremaneira para esse distanciamento dos seguidores do catolicismo.
Os fiéis da Igreja Católica são cheios de boas intenções e não questiono suas crenças, assim como respeito qualquer outra fé que tenha no cerne a prática do bem. Também não ouso generalizar que más condutas venham de todos os padres ou líderes espirituais, já que muitos, muitos mesmo, são grandes missionários e vieram para a Terra para promover exatamente o que Jesus queria, ou seja, a propagação do amor ao próximo. Cito exemplos católicos de abnegação como Padre Donizete, Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce, entre outros tantos, anônimos, e que nasceram para fazer o bem e cultivar a paz, independentemente da religião.
Me pergunto e faço a mesma pergunta a vocês: como uma instituição religiosa, que insiste estar baseada em fundamentos da doutrina cristã, pode estar engajada em uma luta tão cruel, radical e homofóbica? O que são moral e bons costumes diante de um passado e um presente nem tão cristalinos assim?

A Ferradura e as Cerejas

{ quarta-feira, 21 de julho de 2010 }

Meu pai guarda na memória uma linda fábula que era contada por meu avô, que veio da Rússia e que, por sua vez, na infância, ouvia a história contada pelos lábios de meu bisavô.

Um avô passeava com o neto e encontra uma ferradura no meio da estrada. Com dificuldade, se pôs a pegá-la. Por muitos passos, o menino zombou do avô dizendo que o objeto não valia o esforço.
No caminho, o velho avistou uma ferraria e conseguiu fazer um dinheiro com a ferradura, que usou para comprar cerejas numa feira ali perto. Conforme ia caminhando, o homem jogava as cerejas para que o menino, caso quisesse saboreá-las, as pegasse do chão. E foi assim pelo longo trajeto; o garoto abaixava e pegava fruta por fruta caídas.
Intrigado, o jovem perguntou o motivo daquela atitude. O velho, com sabedoria, explicou: "Quando nos curvamos uma vez na vida, podemos nos poupar de nos curvarmos outras tantas".


Fico pensando em alguém que saiu de seu país para fugir da miséria deixada pela Revolução Russa que espalhou dor e tristeza para os povos eslavos. Com uma coragem extraordinária, ele embarcou sozinho num navio em 1929, com apenas 18 anos, para nunca mais conseguir voltar à sua terra e rever sua mãe e irmãos. Seu pai já havia morrido, quando ele ainda era menino, em decorrência dessa opressão.
A fábula é uma preciosidade em nossa família já que trata-se de umas das poucas coisas de seu país que, devido ao sofrimento de uma infância roubada pela guerra, meu avô devia recordar com carinho.




Meus tios-avós russos na década de 50. As memórias e sentimentos eram resgatados por meio de cartas e fotos enviadas ao Brasil.

Por que você matou o cara?

{ sexta-feira, 16 de julho de 2010 }
Gafe é uma coisa que na minha família passa de geração para geração. Está arraigada no DNA, junto com a distração característica dos Komar. Outra coisa muito comum entre as mulheres lá de casa é que todas têm acessos de riso constantes e inconvenientes e por qualquer besteira. Certa vez, até podia ter morrido por causa disso.

Ainda foca, por volta dos meus 20 anos, eu era repórter policial do extinto Clube Verdade. Numa madrugada qualquer – provavelmente de um final de semana, já que sempre fui sorteada com os plantões de sábado mais movimentados do mês – fui chamada para o esclarecimento de um homicídio, ou seja, pegaram o autor de um crime que acontecera umas duas semanas antes.

Na DIG, os investigadores apontaram o suspeito, um menor de idade sentado numa salinha, e nos deram permissão para entrevistá-lo. Posicionamos o garoto para que ele ficasse de costas pra câmera, sendo que eu permaneci de frente para o cinegrafista, o Xanana, um figuraça e foca, assim como eu. Ligamos o equipamento e eu comecei a entrevista: “Qual o motivo do crime?” Disparei. Nesse instante o menino começou a suar e a contorcer o pescoço: “Ahhh po...por..po...por...”. E sua mandíbula ia e vinha e só saiam grunhidos da boca do rapaz, que era completamente gago.

A situação foi piorando conforme ele ia ficando nervoso. E minutos se passaram e nada do coitado conseguir desenvolver uma única frase. E eu já não aguentava mais disfarçar minha vontade de soltar uma gargalhada quando, de repente, foi inevitável. Olhei pro Xanana e a câmera já estava pulando em seu ombro e aí me entreguei a uma incontrolável e infindável crise de risos.

Não sei ao certo quanto tempo demorou aquele tormento, mas me recordo que o desespero era tanto que fiz promessa até pra Santo Expedito me fazer parar de rir. Fui aos poucos me refazendo do bafo, me concentrei, pedi desculpas e voltei a fazer a maldita pergunta: “Por que você matou o cara?”

A resposta, enfim, saiu em doses homeopáticas da boca do adolescente, como que se a adrenalina e o ódio do momento tivessem feito ele parar de emitir sons bizarros para voltar a formular palavras: “e-e-eu ma-ma-ma-ttttt-tei po-po-porrr-que e-ele rrriu da-da mi-mi-mi-nhaaa gag-gag-gag-ga-guei-ra”. Fim da entrevista.

Ôôô Maquinista!!!

{ sexta-feira, 9 de julho de 2010 }

Hoje fui ver “O Segredo de Seus Olhos”, linda obra argentina ganhadora do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. No final da exibição, uma falha técnica conseguiu estragar um pouquinho a grande sacada do filme; ele apareceu cortado e as legendas surgiram na parte superior da tela.
Com um pouco de esforço, até daria para assistir tentando administrar as falhas, não fosse por um senhor bem idoso que começou a bater palmas, tirando a atenção de todos ao esbravejar: “Ôôô maquinista!”.
Sim, segundo o dicionário, maquinista é aquele que opera uma máquina, no caso, o projetor. O nosso amigo idoso não estava errado, só um pouco ultrapassado. Hoje em dia, chamamos esse profissional de operador de cinema e deixamos o “maquinista” para aquele que dirige trens.
O episódio que me fez dar boas risadas, reacendeu algumas lembranças de infância, quando minhas avós me faziam quebrar a cabeça com algumas expressões:

- Na sua idade, eu era uma uva: No dicionário moderno da avó Nair, nascida em 1908 e que aliás, era a rainha das gírias da década de 40, “uva” queria dizer “mulher bonita”. Como eu odeio uva, nunca entendi muito bem essa comparação...

- Você está incomodada?: Segundo o vocabulário da avó Cândida, nascida em 1913, a menstruação era algo tão desagradável que a mulher sangrando só poderia estar incomodada. Faz sentido!

- Aquela lá era do chifre furado: Dona Nair se expressava assim quando queria dizer que tal pessoa já aprontou algumas na vida. Acredito que se compara ao atual “biscate”, entendeu?

- Aquele gostava de uma fuzarca: Essa é outra gíria bem legal das vovós, que quer dizer que o sujeito era chegado numa farra – e talvez não servisse para constituir família.

- Do tempo do onça: O significado é óbvio: trata-se de algo muito, muito velho (assim como a própria gíria), já que “onça” era uma medida antiga de peso. Da expressão, surgiram variantes como: “do tempo do zagaia”e “do tempo do ronca”. Vai entender...

Mas será o benedito? Vovós falavam isso quando estavam espantadas ou chateadas ao invés do nosso “puta que o pariu!”, que porventura, é um desabafo mais modernoso que cumpre bem melhor o efeito de aliviar uma topada do dedinho na quina. Eu acho.

Espero que tenham achado o texto bem bacana, pois seria o fim da picada não fazer algo supimpa pra vocês. Ósculos e amplexos e até o próximo post!

Um brinde com cicuta à Lei de Gerson

{ quinta-feira, 8 de julho de 2010 }

Ontem eu estava no Centro procurando uma vaga para estacionar o carro. Uma vaga na região central de Ribeirão é uma mosca branca, mas o que eu faria seria jogo rápido e dispensei o estacionamento. Depois de rodar por alguns minutos, enfim, um motorista avisou que estava saindo e dei espaço para ele manobrar o carro, logicamente, com a seta sinalizando que entraria ali, naquele local. Não havia dúvidas.
Mal o carro saiu do espaço reservado a mim por leis dos bons costumes sociais, o veículo que estava logo atrás simplesmente entrou na vaga, sem se preocupar nem um pingo se estaria passando por cima dos direitos de um terceiro, afinal, o mundo é dos espertos, não é mesmo?
Esse tipo de absurdo sempre acontece comigo. Talvez o Cosmos queira me provar que é necessário ser mais tolerante com a limitação intelectual e com a dificuldade de viver em sociedade de algumas pessoas. Dei o alerta em alto e bom som de que chegamos lá primeiro e que a vaga seria minha, porém, mesmo assim, o sujeito não se mostrou arrependido. Pelo contrário. Acho que ele não entendeu até agora que existem regras sociais até para ações cotidianas, como estacionar um carro.
Se fossem outras épocas, como já aconteceram duas vezes, uma no estacionamento do Carrefour e outra no do Wall Mart, talvez eu armasse um barraco homérico com o motorista (ou a motorista, como num dos casos) com direito a uma guerra – não, não sou nada fina quando o assunto é justiça – até conseguir minha vaga de volta. Mas dessa vez, não. Consegui apenas ficar com pena do sujeito tamanha inferioridade que ele demonstrou. E depois de uma rápida discussão, deixando claro que ele fez besteira, fui embora para não empacar ainda mais o trânsito e logo achamos outra vaga.
É um desrespeito cívico furar fila, roubar vaga de estacionamento, jogar lixo pra fora do carro, colocar um cone na frente de uma loja para ninguém estacionar naquele local – que é público, diga-se de passagem, não ceder um assento para um idoso debilitado ou para uma mãe com criança no colo num ônibus. Mas também é um desrespeito contra a sociedade você não manifestar sua indignação diante de tais atitudes.
Gerson, ex-jogador de futebol, imortalizou a frase ‘Gosto de levar vantagem em tudo’ numa propaganda de cigarros da década de 70. Nenhuma declaração poderia cair tão bem na personalidade do brasileiro médio. Mas quem tem a cara-de-pau de roubar uma vaga, por exemplo, não é esperto, como diz a Lei de Gerson; é uma maçã podre capaz também de cometer delitos um pouco mais graves contra a sociedade. Cuidado com a esperteza, malandragem!

Nosso rigoroso inverno de 35º

{ quarta-feira, 7 de julho de 2010 }

Eu odeio o inverno. Odeio mais que dobradinha e esmalte descascado. O frio me causa cãibras e tenho que dormir de meias, coisa que detesto. Meu dedinho quebrado avisa a queda da temperatura da pior forma: latejando. O nariz da flor de estufa aqui fica vermelho e gelado e já dá sinais de baixa resistência com aquelas fungadas inconvenientes.
Segundo especialistas, o frio está intimamente ligado à depressão. A explicação científica é que nas épocas mais frias, com a baixa luminosidade, a produção de melatonina é maior e o aumento desse hormônio tem relação inversa com a serotonina, aquele neurotransmissor que nos deixa em estado de êxtase quando produzido ‘em larga escala’ e cuja diminuição, consequentemente, leva à melancolia.
Biologicamente complicado de entender, mas, resumindo, o frio é uma chatice e em lugares gelados, as pessoas são mais suscetíveis à tristeza. Algo que não entendo é quando dizem que os transeuntes ficam mais bonitos no frio; não sei onde. Parecemos patchwork com cabelos despontados e peles secas. Nem Monange salva.
Deus sabe o que faz e me cuspiu bem aqui, em Ribeirão Preto, conhecida como uma panela de pressão por ser uma das cidades mais quentes do estado de São Paulo, onde o inverno, como diria Padre Quevedo, ‘no equixiste’. Durante o dia de hoje, os termômetros marcaram 35 graus – em pleno inverno – e os botecos, um em cada esquina nessa terra linda, numa hora dessas, já começaram a ser disputados.
Ribeirão, te amo! Aqui as pessoas são calientes. E felizes.

O apagador de passado

{ quinta-feira, 1 de julho de 2010 }

Hoje recebi um presente. Um apagador de passado. Ele veio numa caixinha do tamanho de um livro, com um laço vermelho e os seguintes dizeres: “Comece do zero, sem arrependimentos”.
Verifiquei o aparelhinho com seus estranhos botões e luzinhas verdes e vermelhas e fiquei pensativa. Todos nós temos coisas que fizemos que gostaríamos de apagar da memória.
Besteiras, constrangimentos, perdas, gafes, oportunidades jogadas fora. Tudo isso ficaria apagado, inerte num cantinho mal utilizado do cérebro, sem acesso às emoções.
Resolvi testá-lo e, no impulso, apertei o tal botãozinho vermelho e fiz uma limpa na intensidade máxima. Joguei tudo de ruim fora.
Como prova de minha gratidão, mandei um bilhete ao autor do presente: “Hoje sou uma pessoa mais feliz; não tenho arrependimentos”.
Foi nessa hora que li nas pequenas letras do manual de instruções do equipamento: “Manuseie com cuidado ou todos os erros que você se esqueceu, se repetirão”.