Com que direito?

{ quinta-feira, 22 de julho de 2010 }
Hoje cedo, li uma notícia no Jornal Tribuna, de Ribeirão Preto, que me deixou consternada. Um grupo de jovens de uma corrente da Igreja Católica esteve ontem à noite fazendo uma passeata no Centro da cidade protestando com faixas e cartazes contra o aborto, a união gay e a legalização das prostitutas.
Respeito a liberdade de expressão e protestos são legítimos, mas não podemos nos esquecer que a nossa liberdade termina quando começa a de outro. Não escrevo com o intuito de detalhar minha opinião sobre qualquer um dos três temas por eles proscritos, que, aliás, não consigo imaginar de que forma possam prejudicar o rumo de uma coletividade. Resumo dizendo que homossexuais têm o direito e o dever de buscarem a felicidade, têm de ser respeitados, mesmo numa sociedade infelizmente ainda preconceituosa, em que alguns membros se julgam modelos a serem seguidos. E o aborto é um assunto que tem de estar livre das amarras religiosas, dizendo respeito somente à gestante.
Estamos no século 21 e não podemos nos prender a imposições religiosas como a proibição do uso do preservativo, por exemplo, que também esteve em pauta no protesto. O sexo fora do casamento existe e seria uma calamidade se não houvesse campanhas para as pessoas se protegerem. Ninguém vai conseguir eliminar a promiscuidade ou a prostituição – que aliás sempre existiu desde que o mundo é mundo – com uma varinha mágica e água benta. Portanto, informação e prevenção são necessárias, muito mais que discursos inflamados sobre moral e bons costumes.
A Igreja Católica desde os remotos tempos, vem dado mostras de intolerância, tendo sido, na Idade Média, o grande berço da Inquisição, responsável pela morte de milhares de supostos hereges – pensadores, cientistas, idosas solteiras, etc. – que não rezavam a cartilha da Instituição. Essa mácula perdurou, mesmo que de forma mais branda, até o século 19, porém, ainda hoje, tenta impor seus mandamentos próprios de maneiras severas e terrorismos psíquicos, para isso, enfatizando os males dos supostos pecados. O perdão, portanto, seria utópico.
A Igreja, no entanto, vem passando por uma crise nos últimos 10 anos, perdendo fiéis no país para outras religiões, sem contar os que se tornaram agnósticos ou totalmente céticos. Os casos de pedofilia envolvendo padres têm prejudicado a imagem da Instituição visivelmente, despertando a ira da sociedade e colaborando sobremaneira para esse distanciamento dos seguidores do catolicismo.
Os fiéis da Igreja Católica são cheios de boas intenções e não questiono suas crenças, assim como respeito qualquer outra fé que tenha no cerne a prática do bem. Também não ouso generalizar que más condutas venham de todos os padres ou líderes espirituais, já que muitos, muitos mesmo, são grandes missionários e vieram para a Terra para promover exatamente o que Jesus queria, ou seja, a propagação do amor ao próximo. Cito exemplos católicos de abnegação como Padre Donizete, Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce, entre outros tantos, anônimos, e que nasceram para fazer o bem e cultivar a paz, independentemente da religião.
Me pergunto e faço a mesma pergunta a vocês: como uma instituição religiosa, que insiste estar baseada em fundamentos da doutrina cristã, pode estar engajada em uma luta tão cruel, radical e homofóbica? O que são moral e bons costumes diante de um passado e um presente nem tão cristalinos assim?

11 palpites:

Mayara disse...

Quem é a igreja católica para dar exemplo de moral se dentro da própria instituição existe tanta imundice que insistem em tentar, em vão, esconder?
A falsa moral imposta por estes membros tão hipócritas me enoja. Eles deveriam olhar para o próprio umbigo antes de cuidar das vidas alheias, pois, se estão na terra como comedores de feijão como qualquer outro ser humano, não têm o direito de julgar a vida de ninguém. E isto só mostra quão espiritualmente atrasados são.
Protestos são válidos sim quando visam o bem estar geral e não uma crença cretina que tenta ser imposta assim como sempre tentou-se impor desde a antiguidade.
Concordo que dentro da igreja católica existam fiéis que estão ali para buscar o bem mas, infelizmente, esta instituição, assim como inúmeras outras, também têm muita podridão. Senão mais podridão que qualquer outra coisa!

Dan disse...

bom, vc ja falou tudo Livia. Eu só lamento! :(

Rodrigo Teixeira disse...

Belíssimo texto.
Segui a dica do Dan.

=D

Lívia Komar disse...

Obrigada, Rodrigo! Seja super bem-vindo!!!

Dan Gutierrez disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dan Gutierrez disse...

Primeiro, queria agradecer pelo comentário no meu blogue e também pela promessa. Siga @dangutierrezbr no Tuíter pra saber quando terei postado algo -- eu não escrevo todos os dias como você e saiba, desde já: te invejo.

Agora, quanto ao seu texto, sou católico, de família, criação e coração. E não abro. Mas endosso sua visão e sua posição: sou contra movimentos (e pessoas) radicais que querem ser exemplo. Especialmente esses sunitas que se dizem católicos.

Vale lembrar, Lívia, que os três exemplos que você citou no fim do texto são expoentes da Igreja Católica (Irmã Dulce, Padre Donizete e Madre Tereza). E suportavam, na verdade, a única bandeira que realmente traduz o catolicismo: o amor de Deus.

Mas, infelizmente, hoje se vê muita gente falando de Deus sem saber quem é Deus. E se esquecem que, acima de tudo, ser católico é amar, acolher o outro e nunca julgar. Por mais que o catolicismo diga que o ideal é que um homem se una a uma mulher, e que seja incorreto interromper o ciclo de reprodução, jamais se deve fechar as portas da Igreja pra um homossexual ou negar a mão a uma mulher que abortou.

O que vale em nós é o amor, não o pecado. O que Deus quer de nós é o amor, não o pecado. E no fim, a misericórdia dEle é infinita pra todos. E o amor dEle é maior que tudo.

Desculpa a pregação... Mas valeu pelo espaço pra escrever, já que no meu blogue eu pouco publico.

Lívia Komar disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lívia Komar disse...

Oi Dan, gostei muito de sua resposta!
Realmente qualquer religião deve pregar o amor ao próximo em primeiro lugar e como disse no texto, respeito as crenças, sejam elas quais forem.
Em todos os templos, repito, todos, existem pessoas que desvirtuam o verdadeiro sentido de ser cristão, principalmente aqueles que os comandam em nome de Deus e que deveriam ter a responsabilidade de dar bons exemplos. Mas quem está lá dentro para fazer o bem e só o bem, se sobrepõe a tantas máculas e negatividades, como esse radicalismo totalmente fora do contexto cristão presenciado ontem.
Os três ícones da Igreja, não por acaso, foram citados no post, pois são verdadeiros exemplos católicos de renúncia e caridade e não deixariam polêmicas interferirem em suas ações em prol do próximo.
Algo que não disse no texto é que eu seria incapaz de fazer um aborto mas respeito a opinião e as condições de uma mulher que opta por isso e acho que não é a religião que tem que determinar se isso é proibido ou não.
Enquanto houver pecados, as ações não serão feitas de coração, mas por medo de uma consequência do Alto.
Outra coisa, um homossexual não deve ser taxado por sua opção sexual dentro da Igreja ou fora dela. Abrir as portas de um templo para um gay não pode ser considerado caridade. Ao meu ver, deveria ser algo natural: a Casa de Deus, como o catolicismo diz, recebendo mais um de seus filhos, seja ele pobre, rico, branco, negro, gay ou hetero...

Fique sempre à vontade para dar seu recado. É um prazer ter pessoas esclarecidas como você por aqui!

Bordunga disse...

É muito triste tomar conhecimento de que a felicidade alheia pode incomodar. Penso que o importante é ter caráter, o que visivelmente falta a essas pessoas.

Dan Gutierrez disse...

Mais uma vez, compartilho de sua visão. E é sempre bom poder comentar textos como os seus.

E obrigado, mais uma vez, pelo espaço.

RenataBV disse...

Só queria que a igreja católica (ou qquer outra) me mostrasse onde foi que Deus escreveu que essas coisas são erradas e mais, que Deus quer que essas coisas sejam punidas.
Ele ou Jesus, com certeza, não o fizeram; entretanto teem seus santos nomes colocados nestas tristes decisões dos Homens. E certamente ficam a cada dia mais decepcionados com a Humanidade!
Religiões são feitas de Homens, e Homens não são perfeitos.
Se fossem feitas de AMOR, a Terra estaria bem melhor.

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