A Ferradura e as Cerejas

{ quarta-feira, 21 de julho de 2010 }

Meu pai guarda na memória uma linda fábula que era contada por meu avô, que veio da Rússia e que, por sua vez, na infância, ouvia a história contada pelos lábios de meu bisavô.

Um avô passeava com o neto e encontra uma ferradura no meio da estrada. Com dificuldade, se pôs a pegá-la. Por muitos passos, o menino zombou do avô dizendo que o objeto não valia o esforço.
No caminho, o velho avistou uma ferraria e conseguiu fazer um dinheiro com a ferradura, que usou para comprar cerejas numa feira ali perto. Conforme ia caminhando, o homem jogava as cerejas para que o menino, caso quisesse saboreá-las, as pegasse do chão. E foi assim pelo longo trajeto; o garoto abaixava e pegava fruta por fruta caídas.
Intrigado, o jovem perguntou o motivo daquela atitude. O velho, com sabedoria, explicou: "Quando nos curvamos uma vez na vida, podemos nos poupar de nos curvarmos outras tantas".


Fico pensando em alguém que saiu de seu país para fugir da miséria deixada pela Revolução Russa que espalhou dor e tristeza para os povos eslavos. Com uma coragem extraordinária, ele embarcou sozinho num navio em 1929, com apenas 18 anos, para nunca mais conseguir voltar à sua terra e rever sua mãe e irmãos. Seu pai já havia morrido, quando ele ainda era menino, em decorrência dessa opressão.
A fábula é uma preciosidade em nossa família já que trata-se de umas das poucas coisas de seu país que, devido ao sofrimento de uma infância roubada pela guerra, meu avô devia recordar com carinho.




Meus tios-avós russos na década de 50. As memórias e sentimentos eram resgatados por meio de cartas e fotos enviadas ao Brasil.

2 palpites:

Dan disse...

é. histórias de família a gente tem que preservar mesmo.
Aposto q as cerejas sempre te trazem essa lembrança.
bjo

RenataBV disse...

Linda histórias... a da fábula e a do seu avô.

Caraca, Livia: O cara da foto é muito parecido com o seu pai!

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