Vamos de camburão?

{ sexta-feira, 24 de dezembro de 2010 }

Final de ano é época de férias, praia e aventuras incríveis que brotam como verrugas naquela viagem que tinha tudo para ser um mar de tranquilidade.
A gente nunca pensa que num simples passeio a São Vicente, por exemplo, seremos enfiados no chiqueirinho de uma viatura policial. E que isso, não é assim uma coisa tão ruim, já que pode ser classificada como a nossa única salvação numa madrugada fria e deserta.
Vou explicar, antes que pensem que já cometi algum delito gravíssimo e vi o sol nascer quadrado nesta minha juventude nada transviada.
Busão lotado, serra sem guard rail, crianças comendo Cheetos bolinha e empesteando o ambiente com cheiro de chulé, senhoras falando sobre as virtudes inquestionáveis dos filhos, um gordo roncando feito um suíno, um time de adolescentes que achou o máximo falar alto no fundão do coletivo. E nós, três mulheres e uma criança, todos sonolentos e querendo chegar logo na casa de nossa amiga Marcinha.
Dormimos. E passamos do nosso destino. Muitas e muitas praias adiante. Era madrugada e chovia. Caímos numa bendita pseudo rodoviária rodeada de nada, a última parada daquele chiqueiro ambulante. O próximo ônibus viria somente umas quatro horas depois e ficaríamos ali, à mercê de um cãozinho sarnento e de um bêbado seminu que dormia do nosso lado. Nenhum guarda, nenhum funcionário.
Após ligarmos para todos os taxis da cidade, sem sucesso, decidimos manter a calma e proteger nossas bagagens, visto que a onda de assalto por aquela região nos foi alertada antes mesmo de sairmos da querida Ribeirão Preto.
O Matheus, filho da Alexia, estava assustado. Mas dissemos que o Papai do Céu ia nos proteger. Mayara, minha sobrinha, por sua vez, não queria saber desse papo de Papai de Céu, nem de Santo e nem de Orixá e já estava esgoelando de pavor em ter que ficar ali, sem rumo, naquele lugar deserto, perigoso e desconhecido.
Enfim, depois de um bom tempinho tentando manter a calma, uma luz brilhou em minha mente e chamei os PM´s, que foram mais que gente boa e atenderam prontamente ao nosso pedido, visto que o lugar era punk mesmo. Nos enfiaram no chiqueirinho apertado e nos levaram ao nosso tão sonhado e custoso destino. Não foi preciso ser pega com dorgas e nem dar garrafada na porta de bar para viver o prazer inimaginável de andar de camburão.
Pois bem, histórias de férias felizes, roteiros incríveis e companhias espetaculares, todo mundo tem. Mas só quem já pegou o busão pra descer a serra, com o travesseiro de pena de ganso embaixo do braço e se desorientou descendo seis ou sete praias adiante do seu destino, pode dizer que já viveu uma aventura policialesca. E quer saber? Andar de camburão nem é tão ruim assim... sem algemas, pelo menos, não foi.

Pra quem vai sair de viagem nesse fim de ano, desejo muitas aventuras divertidas na bagagem!

Ser ou estar triste; ser ou estar alegre.

{ quarta-feira, 22 de dezembro de 2010 }

Conheci uma senhora dias desses. Ela freqüenta o mesmo Centro Espírita que meus pais e passa por dificuldades diárias para cuidar da irmã que tem Síndrome de Down. Ela mora num quarto alugado nos fundos da casa de uma moça também bastante carente, sem TV, sem fogão nem geladeira e mata um leão por dia para comprar leite pra irmã, que ultimamente só aceita isso.
Fomos lá levar alguns mantimentos e roupas doados para ajudá-la momentaneamente. No caminho, cheguei a pensar com meus botões: “que pessoa desafortunada!”. Foi quando me deparei com sua garra e alegria de viver e continuar lutando, mesmo já numa idade avançada. E conclui que o desafortunado é aquele que já perdeu as esperanças em ser feliz.
Essa senhora está passando por momentos difíceis e sabe-se lá há quanto tempo sua vida é feita de perdas, carências e necessidades. Porém, lá estava ela, esboçando um sorriso, uma gratidão que veio do fundo de seu âmago, com palavras que levavam a crer serem proferidas por uma alma muito superior.
Para ela, cada vez que a irmã deficiente esboça um sorriso, é uma alegria. Cada vez que seu estômago aceita o leite, é uma conquista. Cada vez que obtém uma graça, é uma vitória, cheia de otimismos.
E me deparo, de repente, com lamúrias cotidianas e sem sentido algum que me deram vergonha de viver nesse planeta. Quem nunca reclamou de barriga cheia que atire a primeira pedra, não é mesmo?
Desejo que no ano que está chegando, todos possam ficar alegres. Infelizmente, um dia ou outro, alguns estarão tristes. Mas que todos SEJAM felizes, mesmo diante dos momentos de impotência. Porque a felicidade é um estado de espírito e não uma conseqüência do filme que é a nossa vida.

Thamy

{ domingo, 19 de dezembro de 2010 }

Ontem foi a festa de formatura do 3º colegial da minha sobrinha Thamyres, que era a caçulinha da titia aqui até 2 anos atrás, quando perdeu o posto pra Maria Fernanda.
A festa foi linda e meus pezinhos estão sofrendo as consequências hoje. E o figado então, nem se fala!
Enfim, só gostaria de dizer que tenho muito orgulho dessa minha querida ariana determinada, sensível, engraçada, inteligente e linda!
Em breve, teremos uma dentista na família. Ela já foi pra segunda da fase da Unesp. Agora, aguardamos a USP.
PARABÉNS, SOBRINHE! Muitos corações com a mão pra vc!

15 promessas para 2011

{ sábado, 18 de dezembro de 2010 }

Nada disso. Não vou fazer aquelas promessas de que iniciarei uma dieta ou entrarei pra academia. Só quero fazer planos que eu possa realmente cumprir.

Separei 15 metas para minha vida em 2011. Valerão a pena.

1) - Ver mais pores-do-sol.

2) - Adorar mais o meu umbigo. E às vezes, só ele.

3) - Ouvir minha música preferida no rádio e cantar alto como num musical. Seja na fila do banco, na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê.

4) - Não me magoar com críticas baratas.

5) - Pisar mais na areia da praia.

6) - Ter pelo menos um final de semana no meio da semana. Só meu.

7) - Fazer um piquenique e ler poesia na sombra de uma árvore.

8) - Aprender mais com quem tem realmente o que ensinar.

9) - Passar noites inteiras procurando estrelas cadentes.

10) - Apreciar mais o riso das maritacas que me acordam todos os dias.

11) - Tomar um único porre, daqueles libertadores.

12) - Ter mais natureza nos meus dias.

13) - Arrumar tempo pra fazer artesanato. E aprender a costurar.

14) - Ir para a Grécia.

15) - Conversar mais com Deus e saber ouvir o que Ele nos diz todos os dias.

Ho Ho Ho!

{ quarta-feira, 15 de dezembro de 2010 }
O Natal está chegando e fiz uma enquete via Twitter pra saber se alguém tinha histórias engraçadas sobre Papai Noel. A fofa da Chris Carolo superou as expectativas contando que sua filha, quando era pequena, lançou um "Me tira daqui que ele está suado e fedido!".
É gente, se for levar criança pra tirar foto com o Papai Noel no calor desse Brasilzão, escolha os primeiros dias, SEMPRE. Na véspera dos festejos, a fantasia já pode sair andando. Né?

Alegrem-se com minha animação junto ao bom velhinho.

Carta a São Pedro

{ segunda-feira, 13 de dezembro de 2010 }

Caro São Pedro,

Venho por meio desta informar que neste Natal, decidi focar meus pedidos a Sua Santidade, que apesar de não andar de trenó e nunca ter visto uma rena de verdade, também é um bom velhinho de barba branca e coração enorme.

Moro em Ribeirão Preto e, como o senhor é porteiro do Céu, vou dispensar mais explicações, pois já deve ter a ciência exata da posição geográfica deste município. Afinal, todo porteiro sabe de tudo.

Dizem que nossa cidade já foi um lugar prazeroso de se morar, provavelmente quando o aquecimento global não estava em voga. Em algumas estações do ano, continua sendo uma delícia, talvez no Outono. Ou no Inverno. Porém, em plena Primavera, temos a impressão de vivermos todos num inferno, com o perdão da palavra.

Sei também que a culpa dessa quentura toda é nossa, já que acabamos com nossas florestas e alguma vez na vida já usamos desodorante com gás CFC. Tu és um sujeito tão tempestuoso por causa disso, que adora soltar raios e trovões nos finais de semana e feriados, ou quando temos uma balada ao ar livre, só pra ferrar nossa vida. É justo, justíssimo, mas peço clemência!

Está sendo impossível ficar dentro de casa sem um ar-condicionado e até a água de nosso banho, que deveria sair fria com o chuveiro desligado, está nos escaldando. Fora de casa, as mulheres são obrigadas a mostrar o sovaco e a pança suados, nossa maquiagem derrete toda e o cecê alheio fica bem mais perceptível, principalmente nos coletivos. Um horror! Jogamos bombinha de São João na cruz ou afogamos Santo Antônio no copo de requeijão, certeza.

Sei que não cuida desse babado das mudanças climáticas e que sua responsabilidade, além de olhar o crachá de quem entra e sai do Paraíso, é só fazer chover, mas sei lá, quem sabe consegue dar uma boa conversada com O Criador para mandar umas frentes frias pra cá. Se não der certo, fale com o filho Dele, que também é gente boa. Porteiro e família do síndico sempre se deram bem desde que o mundo é mundo. Ou Céu é Céu.

Conto com sua ajuda e reforço o pedido fazendo-o lembrar dos dias quentes de verão lá na Galiléia, quando bem antes de assumir o papado, ainda era um discípulo pobre que vivia da pesca e mal conseguia se refrescar naquele calor escaldante mesmo não precisando usar calças. Como eram boas aquelas noites frescas em que não era necessário jogar água benta na esteira para dormir gostoso, não é?

Não queremos o frio, pois não somos iguais aos suíços, ricos e educados, porém suicidas. Gostamos do calor e da alegria que o verão nos traz, principalmente os happy hours de finais de tarde. Mas peço, pelo amor das Festas Juninas, das fogueiras e das paçocas em Teu nome, que tente abaixar a temperatura do Sol, pois, senão, nós, pobres ribeirãopretanos, viraremos petiscos do Diabo.

Obrigada desde já,

Lívia

Amigos

{ domingo, 12 de dezembro de 2010 }
- Ô vagabundo! Quanto tempo!
- E aí, seu animal? Essa barriga não pára de crescer, não?
- É calo, seu cachorro. Pelo menos não tô careca. Essas entradas aí já tão chegando na nuca.
- O que adianta ter cabelo se for pra passar esse gelzinho aí. Coisa de veado, hein?
- Mas e aí, e sua irmã, aquela gostosa, continua com aquele Zé Ruela?
- Tá grávida. Por falar em gostosa, e a sua mãe? Tô com saudade dela.
- Não toma jeito, né boiola?
- E o trampo, continua se ferrando?
- Fui promovido, velho.
- Deu pro chefe, filho da puta?
- Não, a mulher dele que mexeu os pauzinhos. A máquina aqui é foda.
- Ô loco, mano! Aquele dragão deve ter pêlo na teta.
- Melhor que a tua mulher que é um bujão, né manezão?
- Pelo menos não tem bigode igual a tua, né cadelo?
- Sempre bom te ver, seu corno! Mas e aí, o que tá arrumando por aqui?
- Vim pagar umas contas. Dá uma olhada ali no carro que eu comprei, que filé. Computador de bordo, sensor de estacionamento, freio com sistema anti-travamento, bancão de couro. Botei umas rodas, sonzaço. E você, continua com aquela carroça?
- O QUÊÊÊ?? Carroça é madre que te pariu! Perdeu o respeito? Quando foi que eu te dei essa liberdade, seu babaca?

Socos.


Taquicardia pré-Natal

{ segunda-feira, 6 de dezembro de 2010 }
Tá! Natal é uma coisa linda, os prédios ficam todos iluminados, você monta aquela árvore capenga com enfeites de 1,99 e presépio de prástico, bate aquela esperança num mundo melhor e sua vontade de ajudar a humanidade triplica nessa época do ano. Mas vamos combinar? É um período de tensões e comprovadamente uma das fases mais perigosas para bater uma bela deprê que leva seres solitários e endividados até às cuecas e calcinhas a pensar em amarrar um paralelepípedo no tornozelo e pular na banheira de hidromassagem.

Vamos aos fatos:

- Você já não aguenta mais o peso de o ano inteiro ter que entregar milhões de relatórios para aquele chefe mala e a sua única esperança é que se aproximem logo as festas para encher o rabo de peru e vinho e dormir em cima da mesa de sinuca na casa do cunhadão bem de vida. Mas chega abril e não chega 25 de dezembro. NUNCA.

- O seu 13º que poderia ser utilizado para dar uma entrada mixa num carrinho melhor ou pagar o licenciamento e o material escolar da criançada, será revertido em 38 presentes para o marido, filhos, mãe, pai, avó, sogra, bisavó, tia, 17 sobrinhos e para aquele primo do cunhado da sua irmã que tentou o suicídio no último Natal e vai passar as festas com vocês porque está carente.

- Aí, você vai o Shopping. Põe a família e a sogrona no carro e vamos fazer as compras de fim de ano! Mas não existe a porra de uma única vaga para parar e, quando você encontra uma depois de dar 75 voltas no estacionamento com um calor de 42 graus, você liga a maldita seta, mas vem um filho da puta numa caminhote amarela com o adesivo “Cuidado, Rahyana Nayarah a bordo” e entra no seu lugar sem a menor cerimônia.

- Se você for com criança no Shopping, é bom ir com tempo. Além de ter que botar uma venda na cria contra os apelos visuais da época e negociar com uma miniatura de cinco anos o valor do presente que ela levará pra casa, você ainda terá que enfrentar a famosa fila do Papai Noel. Uma hora depois, prepare o bolso - venda um rim ou uma córnea - para comprar a foto do bom velhinho e também o Nintendo Wii com 15 jogos que o filho da mãe prometeu que levaria para o pimpolho alheio no Natal.

- Naqueles dias entre Natal e Reveillon, o chefe te deu férias. As únicas do ano. E é impressionante como um ser humano quando recebe liberdade, nem sempre sabe como lidar com ela. Deixar pra última hora a escolha da viagem de fim de ano pode te levar a ter uma enorme dor de cabeça e te sobrar somente a casa da tia Elvira lá em Pintassilgo da Boa Esperança - MG, onde o brilho dos fogos é substituído por bombinhas de São João.

Taquicardia de fim de ano. VEM GENTE!

Tatuagem desgastada

{ domingo, 5 de dezembro de 2010 }
Em algum momento do relacionamento, se Romeu e Julieta não tivessem morrido tragicamente, tenha a certeza de que teriam brigado por ele peidar embaixo do cobertor ou por ela usar o barbeador dele pra depilar a perna. Não existe amor perfeito, beim! O que existe é saber lidar com as situações, o que nem sempre é tão simples.
Tudo bem que viver num relacionamento infeliz por conta de convenções da sociedade é ridículo e ultrapassado, mas, ultimamente, o que observo é um misto de intolerância e volubilidade e a palavra de ordem é: desistir. Qualquer insatisfação momentânea, piração, impulso, uma bunda mais gostosa ou sei-lá-o-quê, tornaram-se motivos pra romper uma história, às vezes de décadas.
Graças à evolução, conquistamos o direito de decidir se aquele casamento ou namoro ainda é interessante para nós. Pode-se buscar um outro cobertor de orelha, ou optar por ficar sozinho. Porém, numa relação, se ainda existe amor, companheirismo e respeito, custa sermos um pouco mais maleáveis com a cultura, criação ou manias inconvenientes de nossos pares para evitarmos briguinhas idiotas? Afinal, todo mundo tem suas esquisitices, né não?
A vida a dois pode ser maravilhosa, mas definitivamente, não é fácil. Chatas implicam porque o cara deixa toda a hora a tampa do vaso erguida depois de fazer xixi. Vai lá e abaixa, pôxa! Ou então o sujeito reclama que a mulher demora muito pra se arrumar. Abre uma cerveja e espera, vai valer a pena! Esses são exemplos de pequenas picuinhas que vão dando no saco e desgastando a vida do casal mais espiritualizado ou adepto do Rivotril. Sério, dá pra gastar saliva quando o assunto for realmente importante?
Apóio a decisão de pessoas de coragem e amor próprio que põem um ponto final numa união que só traz infelicidade, mas também admiro muito aqueles que passam por tempestades e buscam força no fundo da alma para tentar fazer valer a pena um grande amor, mesmo que já meio roto pelo tempo. Cada um sabe onde o calo aperta, então, porque não deixar o sapato um pouquinho mais frouxo e a vida mais leve?
Se a separação for um bálsamo, que se aproveitem os novos prazeres na vida! Porém, depois de um impulso errado, dá-lhe apagar a tatuagem na bunda que jurava amor eterno. O duro é que pode ser que por um bom tempo, ela fique lá, desgastada na pele, mas dolorosamente enraizada e ainda nítida no coração.

Crônica barata

{ quinta-feira, 2 de dezembro de 2010 }
- Sua vagabunda, filha da puta, seu traste!
E o cotidiano daquela mulher era envolto por agressões miseráveis, como tudo em sua vida. Quase que diariamente, ela se sentia realmente como se não prestasse nem pra cuidar de uma casa que não era dela, ou de uma família que, pensando bem, também não lhe pertencia.
Não, ele nunca a agredira fisicamente. Ela até o julgava um bom homem por causa disso e fingia para si mesma nem se importar quando ele chegava em casa com cheiro de pinga e suor de gozo. A culpa era dela, que deixava a maturidade chegar de forma galopante e cruel.
Seu único vício era o cigarro barato e as revistas de novela que comprava com o dinheiro de uns bicos aqui e acolá. Lavava e passava pras madames e, vez ou outra, arriscava-se fazendo as unhas das vizinhas da comunidade. Depois, entre uma baforada e outra, tomava por brincadeira para si aqueles romances que, infelizmente, não eram dela.
O homem saía todas as manhãs, com o emprego engasgado, mas com a benção de São Jorge. E o mundo dela se afundava mais e mais com seu retorno, totalmente alheio àquele lar.
- Sua vagabunda, filha da puta, seu traste!
Vivia aquela vida ordinária por viver. E estava resignada com seu destino. Era aquilo e pronto. Não tinha motivo pra sorrir, então, não sorria. Mas também não lhe restaram mais lágrimas. Apenas aceitava. Não perguntava nada, não sabia ou simplesmente não fazia questão de entender.
Numa noite em que os cães da vizinhança pareciam prever com latidos ensurdecedores o desfecho de mais aquele dia, homens armados invadiram seu barraco com gritos de ódio e cobranças de dívidas. Mataram seu homem. Liquidaram a vida dele, bem ali, no quarto dividido por todos os moradores.
Na cama, que não era dela, em meio a gritos de crianças, que também não eram suas, a mulher ajoelhou-se e se pôs a chorar, abraçando o amor que um dia foi seu, mas que nunca foi dela. E junto com o sangue daquele corpo imóvel, se esvaía o resto da vida vagabunda e filha da puta que lhe sobrara.

Miniaturas de mulheres

{ quarta-feira, 1 de dezembro de 2010 }
Penso que ser mãe hoje em dia é uma tarefa das mais difíceis. Entra aquele papo renatorussiano de que o-mundo-anda-tão-complicado-que-hoje-eu-quero-fazer-tudo-por-você, sabe? E diante das agonias do planeta e do excesso de informações descartáveis, constato que algumas mulheres estão meio perdidas e acabam descontando nas pobres crias suas próprias frustrações de adolescência que esbanjam futilidades bizarras.
Outro dia estava vendo no Discovery Home & Health um programa dedicado aos concursos norte-americanos das mini-missies. Acredite se quiser, isso ainda existe, e é de dar dó. Mães que têm a mesma quantidade de massa encefálica do que ocupações diárias acabam por sobrecarregar meninas normais com o peso de se transformarem em miniaturas de mulheres, maquiadas, penteadas, bronzeadas, cheias de vaidade e de um carisma sem espontaneidade alguma – afinal, criança não é robô, né gente?
O cotidiano das garotas é repleto de ensaios numa maratona que as treina desde um simples aceno de mão, até o desfile em si e seus talentos no palco, sejam eles dança, canto ou ginástica olímpica. Tudo com uma simpatia forçada no rosto abarrotado de pó e base. Algumas têm aulas com verdadeiras celebridades do mundo das missies: senhoras pelancudas da terceira idade que querem-continuar-fazendo-parte-de-todo-o-brilho-dos-concursos-a-qualquer-preço. Realmente é uma coisa mágica de se ver: transfiguram a inocência da infância em uma caldeirada frívola desnecessária.
Nos camarins, antes do desfile, as mães “montam” as pequenas. No ritual, autobronzeador, unhas postiças enormes e de todas as cores, dentaduras para camuflar as falhas da dentição próprias da idade, pinças para retirar as sobras de sobrancelha, vestidos e biquínis exuberantes, muito laquê nos penteados exóticos à la anos 80 e a maquiagem menos discreta que encontrarem. No palco, meninas se acostumando desde cedo com a obrigação insalubre de serem as mais lindas de todas e, portanto, vencedoras. No auditório, juradas maravilhadas, mães orgulhosas e pais, em sua maioria, com caras de bunda.
É por isso que amo o filme “Pequena Miss Sunshine”. Esqueça tudo o que eu escrevi; a sátira que a obra faz sobre esse universo paralelo é bem melhor que esta crítica.