Crônica barata

{ quinta-feira, 2 de dezembro de 2010 }
- Sua vagabunda, filha da puta, seu traste!
E o cotidiano daquela mulher era envolto por agressões miseráveis, como tudo em sua vida. Quase que diariamente, ela se sentia realmente como se não prestasse nem pra cuidar de uma casa que não era dela, ou de uma família que, pensando bem, também não lhe pertencia.
Não, ele nunca a agredira fisicamente. Ela até o julgava um bom homem por causa disso e fingia para si mesma nem se importar quando ele chegava em casa com cheiro de pinga e suor de gozo. A culpa era dela, que deixava a maturidade chegar de forma galopante e cruel.
Seu único vício era o cigarro barato e as revistas de novela que comprava com o dinheiro de uns bicos aqui e acolá. Lavava e passava pras madames e, vez ou outra, arriscava-se fazendo as unhas das vizinhas da comunidade. Depois, entre uma baforada e outra, tomava por brincadeira para si aqueles romances que, infelizmente, não eram dela.
O homem saía todas as manhãs, com o emprego engasgado, mas com a benção de São Jorge. E o mundo dela se afundava mais e mais com seu retorno, totalmente alheio àquele lar.
- Sua vagabunda, filha da puta, seu traste!
Vivia aquela vida ordinária por viver. E estava resignada com seu destino. Era aquilo e pronto. Não tinha motivo pra sorrir, então, não sorria. Mas também não lhe restaram mais lágrimas. Apenas aceitava. Não perguntava nada, não sabia ou simplesmente não fazia questão de entender.
Numa noite em que os cães da vizinhança pareciam prever com latidos ensurdecedores o desfecho de mais aquele dia, homens armados invadiram seu barraco com gritos de ódio e cobranças de dívidas. Mataram seu homem. Liquidaram a vida dele, bem ali, no quarto dividido por todos os moradores.
Na cama, que não era dela, em meio a gritos de crianças, que também não eram suas, a mulher ajoelhou-se e se pôs a chorar, abraçando o amor que um dia foi seu, mas que nunca foi dela. E junto com o sangue daquele corpo imóvel, se esvaía o resto da vida vagabunda e filha da puta que lhe sobrara.

5 palpites:

Thaís Felix de Oliveira disse...

Credo, muito triste :O
chocante, nojento e revoltante.
O Pior é que, existem pessoas que realmente não querem mudar as suas vidas :/

controlandominhamaluquez.blogspot.com

Shirley disse...

Nossa forte, tenso, mas o pior é a realidade de muitas mulheres.
Tem que ter força para virar o jogo e acima de tudo amor próprio, bjocas...

Fabi M. disse...

Uau! Forte ein?

Bordunga disse...

Ex-ce-len-te!!! Guria, escreva mais crônicas baratas, pq vc arrasa. Lembrou-me Dalton Trevisan, a propósito, faz tempo que não o leio.

Parabéns.

Thaís Felix de Oliveira disse...

Tem um Selo Lá no Meu Blog Pra Você!
controlandominhamaluquez.blogspot.com

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