Miniaturas de mulheres

{ quarta-feira, 1 de dezembro de 2010 }
Penso que ser mãe hoje em dia é uma tarefa das mais difíceis. Entra aquele papo renatorussiano de que o-mundo-anda-tão-complicado-que-hoje-eu-quero-fazer-tudo-por-você, sabe? E diante das agonias do planeta e do excesso de informações descartáveis, constato que algumas mulheres estão meio perdidas e acabam descontando nas pobres crias suas próprias frustrações de adolescência que esbanjam futilidades bizarras.
Outro dia estava vendo no Discovery Home & Health um programa dedicado aos concursos norte-americanos das mini-missies. Acredite se quiser, isso ainda existe, e é de dar dó. Mães que têm a mesma quantidade de massa encefálica do que ocupações diárias acabam por sobrecarregar meninas normais com o peso de se transformarem em miniaturas de mulheres, maquiadas, penteadas, bronzeadas, cheias de vaidade e de um carisma sem espontaneidade alguma – afinal, criança não é robô, né gente?
O cotidiano das garotas é repleto de ensaios numa maratona que as treina desde um simples aceno de mão, até o desfile em si e seus talentos no palco, sejam eles dança, canto ou ginástica olímpica. Tudo com uma simpatia forçada no rosto abarrotado de pó e base. Algumas têm aulas com verdadeiras celebridades do mundo das missies: senhoras pelancudas da terceira idade que querem-continuar-fazendo-parte-de-todo-o-brilho-dos-concursos-a-qualquer-preço. Realmente é uma coisa mágica de se ver: transfiguram a inocência da infância em uma caldeirada frívola desnecessária.
Nos camarins, antes do desfile, as mães “montam” as pequenas. No ritual, autobronzeador, unhas postiças enormes e de todas as cores, dentaduras para camuflar as falhas da dentição próprias da idade, pinças para retirar as sobras de sobrancelha, vestidos e biquínis exuberantes, muito laquê nos penteados exóticos à la anos 80 e a maquiagem menos discreta que encontrarem. No palco, meninas se acostumando desde cedo com a obrigação insalubre de serem as mais lindas de todas e, portanto, vencedoras. No auditório, juradas maravilhadas, mães orgulhosas e pais, em sua maioria, com caras de bunda.
É por isso que amo o filme “Pequena Miss Sunshine”. Esqueça tudo o que eu escrevi; a sátira que a obra faz sobre esse universo paralelo é bem melhor que esta crítica.



3 palpites:

Thaís Felix de Oliveira disse...

Na Minha infancia, gostava de me vestir largadona,
correr e suar, me ralar e rir de tudo depois!
Isso sim é que foi Infância ;D

controlandominhamaluquez.blogspot.com

Fernanda Marchioretto disse...

Esse filme é demais mesmo!!!
A vida adulta já nos traz tantas obrigações e responsabilidades. É uma crueldade tirar de uma criança sua época mais linda.
Mães frustadas e sedentas de holofotes... É flor, infelizmente o ego tá tomando conta do mundo.
Tô viciando no blog hein! kkk
Beijão!

Shirley disse...

Perfeito o texto, é impressionante como as crianças de hoje em dia estão ficando adultas tão cedo, e a culpa com certeza é dos pais, essa fase é a melhor da vida, onde vc não vê malícia em nada e tudo se transforma numa doce brincadeira.
Pelo menos na nossa época era assim, hoje criança não quer nem mais ver desenho, basicamente já nasce com um computador na frente e bora ficar nos joguinhos.
Cabe aos pais, deixar a criança cada vez mais curtir a sua infância, é tão bom essa fase, é a base de tudo.
Adoreiiii...bjocas.

Postar um comentário