Da série: De quando eu era criança II

{ domingo, 22 de maio de 2011 }
O Doce de Banana

Quero deixar claro que minha fama de 'perna oca' por comer muito e não engordar é bastante recente. Em pequena, eu era um nojo e não gostava de nada. Por isso, minha mãe sempre achava que eu devia ser contemplada com os melhores pedaços dos doces, ou, até mesmo, com os únicos, afinal, saco vazio não para em pé.
Numa noite, quando eu tinha uns dois ou três anos, ela fez doce de banana pra eu experimentar e meus irmãos, jantando ao meu lado, previram que não ganhariam nem uma colherada.
Pês da vida, maquinaram a vingança, sussurrando em meu ouvido para que minha mãe não ouvisse:

- Lívia, isso é doce de cocô, vai querer mesmo? – Perguntou cinicamente minha irmã.

Eu, com náuseas, disse que não, claro. A gente é criança, mas não é besta.

- Mãe, ela não quer.

- Criança antipática. Divide entre vocês dois então.

Muitos anos se passaram até eu finalmente aceitar provar aquele doce que, até então, era feito de algo não muito apetitoso.


Dez anos sem você

{ quinta-feira, 19 de maio de 2011 }
Quando eu nasci ele tinha 15 anos. Era um menino doce e brincalhão, a alegria das reuniões de família. Se emocionou e chegou a chorar de felicidade quando soube que naquele 25 de março de 1980 ganhara uma irmãzinha, a quarta filha da trupe e a caçulinha do quarteto.
Aos três anos sofri o primeiro baque da minha vida. Meu Dado, o Paulo, sofreu um grave acidente de moto e quem diz que criança não percebe as coisas, não sabe de nada. Lembro muito bem dos 40 dias no hospital, dos 40 dias sem ele em casa, dos 40 dias em que minha família me preparou para o que eu veria quando ele voltasse pra gente. Lembro de nunca ter ido tanto na Cidade da Criança com minha irmã, que me compensava com passeios pois não queria que eu sofresse o que o resto da família estava sofrendo – mas eu sabia muito bem que tinha alguma coisa muito errada naquilo tudo, desde a noite do acidente. Lembro do meu irmão sorridente, de cabeça enfaixada, jogando pela janela lá do alto a ponteira de alguma cadeira do hospital pra eu guardar, porque eu tinha mandado um bichinho meu pra fazer companhia a ele, e ele queria me dar algo em troca.
No dia de seu retorno, fui recebê-lo na porta, mas não foi o fato dele estar sem a mão que me afetou. Assim que o vi subir as escadas, me escondi embaixo da mesa com medo de sua careca. Ele botou um boné e continuamos a vida, sem grandes impactos. Pude então abraçá-lo, cheia de saudade do meu irmão.
E, o que surpreende é que, mesmo após o acidente, sua alegria de viver também não foi afetada. Fez muitas palhaçadas com o fato de não ter mais a mão. Nunca o vi resmungar. Reaprendeu a viver rápido com a mutilação – era canhoto, perdeu a mão esquerda e o polegar da direita, um herói. Deu muita risada com os olhares incrédulos de crianças que ao perceberem a prótese, perguntavam se sua mão era de boneco. E ele respondia que sim, sempre com seu sorriso malaco, o mais lindo e espontâneo que conheci. Continuou um gato e vaidoso e sempre chamou a atenção da mulherada.
Meu irmão foi o que mais deixou minha mãe louca. Com poucos meses, descobriu que era fácil sair do berço dando uma cambalhota e se atirando de cabeça no chão, ao contrário do gêmeo, que apenas observava tudo e dava risada. Atravessou janela de vidro, subiu no telhado com quatro anos, caiu da porta do ônibus em movimento. Com dois anos, respondeu à rainha das carolas da igreja que seu nome era Paulo Bunda, já que ela não conseguiu entender depois de várias tentativas que era Paulo Roberto. Sempre precoce em dar trabalho, aos 19 anos engravidou a namorada, pouco mais de um ano depois do acidente. Com 20 anos estava casado, com uma filha. Depois vieram mais dois meninos e suas crias eram suas paixões na vida.
Na noite de sábado de 19 de maio de 2001, fazia frio e eu estava de plantão, acompanhando um acidente numa estrada e pensando o quanto a família daquela vítima iria sofrer quando soubesse de sua morte. Mal sabia eu que talvez naquele mesmo instante, eu também estava perdendo uma pessoa amada.
E, mais uma vez, ele foi precoce; infelizmente sua missão estava cumprida por aqui. O Paulo sofreu um infarto fulminante, sem explicações, com 36 anos. Nunca vou esquecer a sensação de vazio que senti naquela noite, quando recebi a ligação para largar tudo e voltar pra casa. Tudo isso, misturado à vontade de ser forte para apoiar meus pais. Eu sabia que o Paulo continuava vivo, porém em um plano tão distante de nós que já imaginava que a saudade não teria fim.
Hoje, faz 10 anos que ele foi embora. Além de seus filhos, deixou com a gente suas histórias hilárias, sua força descomunal em continuar lutando mesmo com as cacetadas da vida, seu caráter inabalável, sua alegria que nunca deixou de transparecer em suas gargalhadas gostosas. Ele foi um exemplo de determinação e superação e quando me lembro do ‘Paulão, o Irmão’, não sinto mais a mesma dor de quando ele se foi. O tempo ensina e do Paulo me restou uma saudade imensa e um orgulho sem tamanho de lá no Alto, terem me dado a oportunidade de ser sua irmã nessa vida.



[Paulo, aquele dia que voei de balão, sabe? Estava com você no pensamento e no coração, realizando seu sonho...]

Essa coisa chamada inspiração

{ quarta-feira, 18 de maio de 2011 }
Penso na inspiração dos poetas com suas musas, amores, boemias. Quando tudo está bom, surge algo lindo a ser desfrutado e invejado. A dor de cotovelo também pode ser proveitosa nas artes. Amores mal resolvidos, abandonos, desilusões e corneadas homéricas dignas de serem relatadas à La Elis Regina atrás da porta. Tudo isso rende bons assuntos, até porque todo mundo se identifica com as dores e alegrias deste sentimento intrometido e filho da mãe de bom chamado paixão.
Tudo pode ser tema. Do cotidiano mais comum de Chico Buarque ao dia-a-dia pecador de Nelson Rodrigues. A melancolia, por sua vez, também acaba sendo assunto de importantes ensaios. Para mim, a mais forte representante da categoria é o testemunho atormentado de Augusto dos Anjos de que o beijo é a véspera do escarro e a mão que afaga é a mesma que apedreja.
O negócio é que a vida de todos inspira grandes histórias. Porém, essa inspiração pode ser contraditória; enquanto alguns escritores se aproveitam de momentos de pico de excitação e alegria, outros podem se dar ao direito de momentaneamente apenas pisar nas nuvens.
Só digo que estou mergulhada em um tonel de coisas muito inspiradoras, porém, sem coordenação mental ainda para respingá-las... Garanto que em breve e assim que a "Eureka" me permitir, voltarei com muitos planos e prometo que terminarei um post com bem mais criatividade e menos prolixidade do que esse.

Gestação de idéias

{ sexta-feira, 13 de maio de 2011 }
Em estado de espera.