Aquela Maria

{ quarta-feira, 28 de setembro de 2011 }


Dona Maria tem 93 anos. Seus pezinhos, que já dançaram muito nos salões da terceira idade, encontram-se cansados. No peito, um marcapasso. Na cama do hospital, chora as madrugadas silenciosas. Grita de uma dor que não sabemos mais se é física.
Assim que ficou viúva, a velha de descendência indígena botou a tristeza de lado e foi viver a melhor idade, como os idosos conformados com as marcas do tempo costumam dizer. Como uma adolescente rebelde, sumia de casa e não dava notícias para a família por dias e dias. Era dona do nariz.
Arrumou namorado. E colecionou infartos. No último deles, caiu no salão, enquanto dançava ao som de Lupicínio Rodrigues. Deslizou ao chão com maestria e acordou numa ambulância a caminho do hospital, ainda com os brincos coloridos e pendurados na orelha grande e enrugada.
Recuperou-se na marra; tinha viagem marcada no mês seguinte com os amigos das jogatinas de buraco. Viajou uma viagem longa e cansativa, de ônibus, ainda com as marcas do cateterismo e com os exames falsos de pressão de uma amiga que vendia saúde, só para burlar o esquema, caso fosse barrada do passeio.
E hoje está lá, deitada, afundada num colchão com lençóis listrados. Com poucos minutos de lucidez por dia, chora e sorri como se suas sensações fossem baseadas apenas nos acontecimentos passados. O restante do tempo, vive em seu mundo atual, vazio, triste e debilitado. Como que assistindo suas nove décadas numa tela, olha para o alto por quase todo o tempo, um teto mofado que guarda histórias que vão muito além das questões de saúde tratadas naquele lugar.
E eu sei pouco dela. Mas também, sinto que ela mesmo abriga seus causos tão bem guardados num canto da memória embaçado pelo tempo que mal consegue se lembrar deles.

Coração de mãe

{ quinta-feira, 22 de setembro de 2011 }


Segunda-feira meu coração chorou, ficou partido, dolorido, ao mesmo tempo que o coração da minha mãe dava sinais de que havia algo errado. Dizem – e eu tenho certeza – que coração de mãe é o maior do mundo e quando ele se machuca, o nosso se fere junto.
Guerreira, dona Cidoca está conseguindo vencer bravamente o problema. No hospital, brinca, sorri e até finge descaradamente não ter medo de algum exame pra continuar exalando sua força interior característica das mulheres de fibra, que já passaram por poucas e boas nessa vida.
Mas meu coração ainda sofre ao vê-la longe, sem ninguém das inúmeras pessoas que a amam sendo autorizadas a estarem por perto. Meu coração se entristece ao ver minha querida, que raramente pega sequer um resfriado, tendo o seu coração observado 24 horas por dia num hospital. Meu coração acorda assustado de madrugada quando pensa nela. Meu coração mentaliza as batidas do seu coração, pedindo, quase obrigando, na verdade, que ele pulse direitinho. Coisa de filha apaixonada.
Mas meu coração se abranda, todo esperançoso, ao vê-la nos horários de visita. E a força que eu tento passar naquele “tá tudo bem e vai ficar ainda melhor” fica pequena diante da força que ela passa pra mim, apenas com suas gargalhadas sobre seus sonhos esquisitos que demonstram que sim, “tá tudo bem mesmo e vai ficar ainda melhor”. E eu olho para ela e rezo, grata a Deus pela benção de tê-la em minha vida, com seu coração se recuperando, melhorando a cada dia e recebendo elogios dos médicos, o que enche meu coração de orgulho.
Meu coração ainda está angustiado, mas agradecido. Ele agradece a Deus por ter preservado essa riqueza de amor infinito na minha vida; ele agradece aos amigos e amigas, verdadeiros irmãos, que se mobilizaram naquela segunda-feira para que o coração de minha mãe pudesse receber o melhor atendimento possível.
Ele agradece às ligações, às mensagens de amigos, de parentes próximos e distantes, de amigos de amigos. A preocupação sincera e a solidariedade de quem se põe à disposição, de quem me dá carona quando não estou legal pra dirigir, de quem me traz comida em casa e me força a comer. De quem aceita ligações tarde da noite para conversar. De quem liga antes das 8h da manhã querendo saber notícias. De quem liga no hospital para saber novidades dela só para me tranquilizar. De quem me acompanha até o hospital e segura na minha mão.
Agradece as orações de quem a conhece e também de quem não a conhece, mas sabe a importância de uma mãe na vida de uma pessoa. Ele agradece pela minha família linda e unida e por eu ter um noivo maravilhoso, meu anjo, meu porto seguro, que me ampara e arranca sorrisos da forma mais doce do mundo, até nas horas difíceis.
Apesar de estar aqui grudado no meu peito, acreditem, meu coração esses dias, mais do que nunca, está lá naquele hospital com ela. E também ficará ao lado do seu coração até o resto de nossas vidas – que sei, tenho certeza, demorará muito para chegar.

Imagem: daqui


Bicho-Homem

{ quinta-feira, 8 de setembro de 2011 }
Seria tão mais sublime admirarmos sua beleza, cobiçarmos seu vigor, nos inspirarmos em sua coragem, porém, muitas vezes, preferimos nos igualar à sua irracionalidade. Pena.


















Obra da fotógrafa norte-americana Lennette Newell

Este Calma! no Social Web Day da Fnac

{ terça-feira, 6 de setembro de 2011 }
De 19 a 23 de setembro a Rebellion e a Fnac Ribeirão promovem o Social Web Day, uma iniciativa bacanérrima para discutir e gerar idéias sobre social media.
A programação está show de bola, com palestras de profissionais que todos nós, apaixonados por esse universo, admiramos (veja programação abaixo).
E em meio a tantos nomes dignos de reverência, este Calma! foi convidado a fazer parte do evento. No dia 22, quinta-feira, eu, Fran Micheli (do brogão que eu tiro o chapéu, a tiara e a presilha de florzinha, Mãe Já Acabei) e Analídia Ferri (do Varal Diverso, que terei o prazer de conhecer pessoalmente) falaremos sobre o mundo dos blogs.

Adorei o convite e espero todo mundo lá!

Inscrições: http://www.facebook.com/socialwebday



Quem vai perder?