Nosso querido Charles White

{ domingo, 19 de fevereiro de 2012 }



Dizem que se cunhado fosse bom, não começava com sigla tão ingrata. Discordo.
Quando tinha cinco anos, minha irmã, 18 anos mais velha, se casou. A Ti sempre foi minha heroína. Uma mulher incrível: linda, independente, briguenta, uma sagitariana típica, com gênio forte, mas coração de manteiga.
Seu signo é regido pelo elemento fogo, o mesmo que rege o meu, e, talvez por esse motivo em especial, sempre mantivemos uma afinidade sem tamanho. E é óbvio que, com seus atributos, só poderia ter atraído um companheiro à altura.
Eis que surge em cena – e em nossa família, o Carlos. Carlos Branco, chamado carinhosamente por mim, desde sempre, de Charles White – enquanto eu era a Olívia, talvez pela semelhança com a namorada magrela do Popeye.
Logo após o casamento, decidi que queria ser batizada. De família espírita, não possuímos tal tradição. Porém, com a chegada de minha sobrinha cinco mais nova que eu, que ganharia um par de padrinhos em breve, informei aos meus pais que também queria uma cerimônia de batismo e tive o direito maravilhoso de escolher quem eu gostaria que ocupasse cargo tão importante: Ti e Carlos.
Vivemos histórias incríveis. Mesmo que em alguns momentos de nossa vida a distância geográfica pudesse atrapalhar um pouco nossa convivência, sempre estivemos com os corações em proximidade, rindo das alegrias e nos amparando nos momentos de perrengue, afinal, para o amor não há fronteiras.
Algumas lembranças são muito fortes: os presentes de Natal que eram os mais esperados forever. Lembro da Copa de 94 que assistimos todos juntos em Cuiabá e eu, com 14 anos, esperava ansiosa meu cunhado voltar do trabalho para bicar sua cerveja vendo os jogos. Recordo com gratidão também de quando eles consertaram meu carro na surdina, quando eu estava na faculdade e não tinha dinheiro nem pra comprar uma calcinha. Lembrança boa a do Reveillon do ano passado no Guarujá, quando eles encheram o carro de guloseimas que eu gosto, como se eu ainda tivesse sete anos.
E eu vejo que não poderia ter escolhido dupla tão incrível. Ela, a descontração em pessoa. Ele, a bondade. Ela, a determinação, ele, a paciência. Ela e ele a generosidade para ajudar quem os cercam – inclusive a mim.
Eis que ele se foi ontem, após quatro meses de uma doença terrível, que poderia ter se estendido e estendido sua dor – e a nossa também. Mas sua missão foi cumprida bravamente e ele se foi logo, deixando um vazio sem tamanho. Foi um bom pai, bom marido, bom amigo. Um ser humano maravilhoso e caridoso como poucos que já conheci.
Deixou a Ti, minhas sobrinhas May e Thamy e uma família que não era a sua de sangue, mas que o adotou há quase 27 anos, quando ele conheceu minha irmã. Deixou também uma infinidade de amigos que, ao descobrirem sua doença, quiseram retribuir sua bondade silenciosa na terra – que, em alguns casos, até sua família desconhecia, pois caridade mesmo, a gente não divulga.
E, quando me pego chorando pela partida do Charles White, explico aos que me cercam que ele não era apenas meu cunhado, o marido da minha irmã: era meu padrinho, que tive o imenso prazer de escolher, um grande amigo e um irmão querido - mais um que eu perco nessa vida
Esteja sempre com Deus, Charles White. E repito: para o amor não há fronteiras.