Corte, costura e vida radical

{ quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013 }

Ok, podem me recriminar. Mal comecei as aulas de corte e costura e já precisei “colar” na primeira avaliação. Pensem bem: como alguém consegue ter habilidade pra fazer com que três linhas se encontrem numa mesma costura assim, de primeira, sem nunca ter pregado um botão na vida?

Pra começo de conversa, já estou frequentando o curso como se fosse pra guerra e isso me limita um pouco. Quem falou que futebol americano é uma atividade perigosa não sabe o risco que estou correndo: não posso ir de cabelo solto, pois a máquina pode me escalpelar. Nada de penduricalhos que podem me deixar presa e agonizante na agulha. Sapato aberto nem pensar visto que um alfinete ou tesoura podem fazer meu pé sangrar até a morte. Meu uniforme: jaleco, óculos protetores, dedal e muita coragem.

Quarta-feira foi minha segunda-aula do curso, aquela de apresentação dos equipamentos e, eu e a Mayara, minha sobrinha e companheira de classe, caímos com a máquina que afirmam ser a mais fácil, mais usada para tecidos retos, como algodão e jeans. Mesmo assim, me senti como que atravessando duas montanhas por meio de uma corda bamba e, a qualquer deslize, ao invés de me esborrachar, receberia um zero da professora, o que seria bem humilhante.

O primeiro carretel, você faz um caminho de bêbado com a linha: passa no buraco de trás pra frente, de novo, de trás pra frente, de cima pra baixo, repete a operação, prende na roldana, passa pelo pininho, prende no ganchinho, desce em outro gancho, sobre pro outro, desce pra outro pininho, prende na alça e, enfim, passa pelo buraquinho minúsculo da agulha. Acho que é isso e até aí, tudo bem: sempre fui rápida em aprender e decorar as coisas - mesmo porque, desde sempre, gosto de acabar a tarefinha logo pra poder conversar mais.

O segundo carretel, da costura de baixo, é mais simples, apenas uns quatro procedimentos. O terceiro é que o bicho pega: usar a joelheira para subir a agulha, colocar o carretel no sentido horário com a alça virada pra mim e a linha pendurada por baixo da máquina. Juro que de forma mágica, depois que numa total ação de coordenação motora usando minha mão como direção e meu pé como embreagem, as duas linhas deveriam se encontrar lindamente.

Não é possível que eu não consegui fazer isso. Uma, duas, três vezes... nada! As linhas estavam inimigas, de vendeta, tipo Israel e Palestina na Faixa de Gaza. Me apeguei na esperança de que a máquina estivesse com defeito e pedi ajuda à colega já costureira que de prima fez o último procedimento num tapa e pude mostrar à professora, enfim e cansada, a operação finalizada para poder ir embora pra casa totalmente frustrada. Juro que nem no gerenciamento de crise mais difícil da minha carreira me senti tão intimidada como naquela hora.

Me senti culpada. E descoordenada. Fora isso, estou adorando o curso e sei que loguinho comprarei minhas máquinas e farei das linhas e agulhas mais um hobby divertido – e radical. Vou mantendo vocês informados sobre os próximos acontecimentos. Enquanto isso, acho que vou utilizar meu horário de almoço na caça de uns bons tutoriais para não fazer feio na próxima aula. Afinal, fui incumbida pelo meu noivo de costurar seus próximos ternos e ninguém vai querer ver o Gustavo de calça pula-brejo nem de camisa com o bolso na costela. Né?

Elas estão descontroladas

{ quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013 }
Nesses 15 anos em que acesso a internê, recebi sei-lá-quantos emails além de posts em redes sociais com dicas infalíveis de como a mulher deve se portar para atrair - e manter - o homem amado. Que Oprah pode ter dito e que Martha Medeiros supostamente aconselhou. Têm livros destinados a ajudar mulheres inseguras. Tem até promessas de cartomantes. Um festival de autoajuda e de apelo publicitário de quinta categoria - e inútil para quem tem o mínimo de massa cinzenta. E, detalhe: a autoria da maioria dos textos nem é confiável e, mesmo assim, algumas ínguas da ala feminina espalham essa ‘lei divina para o bem viver’ como se fosse metástase. Até Veríssimo dava conselhos para a turma das calcinhas.

 E os ensinamentos de dar medo de algumas revistas femininas? Faça isso, faça aquilo, "seja a cereja do bolo do seu amado" (oi?); "15 técnicas que levarão o homem desejado à loucura" - e também o seu suado dinheiro nessa porcaria de publicação. Vi hoje uma reportagem num programa matinal (cuja a audiência é garantida pela mãe da apresentadora e também pela minha. Apenas, acho eu.) em que a quarentona afirmou em rede nacional que, "pra quem está solteira, qualquer homem serve". Juro.

Não bastasse tudo o que já tenho mastigado com espanto esses anos todos, me deparo hoje também com o site de um livro dedicado a ensinar a arte da sedução feito "magia". Dentre os itens do aprendizado com o top seller: "Como atrair a atenção de um novo homem a ponto de você não mais sair de seus pensamentos" e "como parar de ser rejeitada pelos homens". Macumba?

Se existe a oferta é porque também existe a demanda. Tem mulher tão desesperada atrás de um bom partido que esquece que também pode ser uma benção na vida de alguém. Quando a pessoa se sente bem e se dá o devido valor, exala autoestima e coisas boas sempre surgem, em horas inesperadas - fora que o amor próprio e a alegria são afrodisíacos. E isso é tão óbvio que nem preciso ser PHD em relacionamentos humanos para ter certeza e assinar embaixo com uma pretensão ímpar o que estou falando.

Agora, as pessoas são diferentes, e os carmas e as vitórias no amor não escolhem a gente pelo cabelo impecável, cinturinha de pilão, bunda gostosa ou pela cor do esmalte. Nem por ser meiguinha ou megablasterfodidona. E nem pelos malabarismos que você sabe fazer entre quatro paredes. Desde que o mundo é mundo, mulheres maravilhosas se ferram no departamento amoroso, marmanjos boa pinta morrem sozinhos e, por sua vez, pessoas que parecem ter sido apagadas a marretadas de uma fogueira, se deram bem e são felizes consigo e com seus pares. Visualizemos que não se trata de receita de bolo e tampouco de característica física ou técnicas do Kama Sutra.

Queremos sim viver num mundo com muita paixão. Amar é bom, é divino! Faz bem pra alma e para a pele. Queremos sim um par especial, a tampa da nossa panela, alguém pra vida toda, pra envelhecer junto e compartilhar momentos, todos eles. Poxa, agradar o outro é bárbaro, longe de ser submissão. Compartilhar uma vida é indiscutivelmente algo maravilhoso. E não adianta conselhos e truques da sua amiga mensal folheável ou de um livro que não custa menos de três dígitos ou, ainda, dessa minha constatação: quem ama, ama, sem grandes explicações mas, a admiração pelo outro é o combustível que move o amor verdadeiro. Ponto.

Tem muita mulher aflita por aí. Talvez aqui no Brasil a desculpa é que somos mais da metade da população ou até mesmo a muleta cultural de que todo homem é canalha então dane-se se a atenção não é recíproca - papo de feminista masoquista de cabelo ensebado. O que importa é que a obrigação de manter um casamento não é só da mulher e desculpa aí se estou enganada, mas não vejo tanto artigo com o tema "como segurar seu par" destinado a homens.

É que isso, ao meu ver, deve ser uma preocupação mútua, porém natural, cotidiana, e não um ato desesperado de um dos lados da corda. Não se pode ser carente a ponto de abrir mão de sua vida para fazer o outro feliz, esquecendo totalmente de si e camuflando seus  próprios desejos. O sentimento de um não pode ser mais importante que o do outro. O respeito à individualidade de cada um deve estar em primeiro lugar - e às vezes isso é muito difícil num casamento porque simplesmente ninguém é perfeito nem 100% compreensivo. 

Só penso ser um desperdício de felicidade dar tanta moral para dicas pré-fabricadas de redatoras que não fazem sexo há mais de uma década ou de gurus da autoajuda que vendem frases feitas para mulheres desesperadas ou de textos que chegam em PPT na caixa de emails os quais nem sabemos a procedência. E também não acho que se preocupar sobremaneira com a busca incessante por um par seja algo saudável. Conseguir ser feliz consigo mesmo contagia. Aí, acho que fica mais fácil dar de ombros pra tantas orientações malucas, conseguindo da forma mais simples atrair pessoas especiais, ou simplesmente, mantê-las.

E se essa tal pessoa ainda não for a tampa ideal da panela, beijo pra ela. Se for, é só fazer a manutenção: regar o jardim todos os dias com carinho e criatividade para brotarem flores cada vez mais exuberantes e esperar o mesmo e nada menos do que isso do sortudo em questão. 


E acredite, esse último parágrafo não tem o custo dos livros nem das revistas, mas tem um imenso valor. Pelo menos para mim.

Carnaval

{ sábado, 9 de fevereiro de 2013 }

Carnaval, ah, o carnaval e tudo o que ele inspira, que ele promete, por quatro dias e cinco noites. É como se fosse um pacote de viagem, daqueles comprados por alguém que já não aguenta mais o peso de sua própria existência naquela rotina insuportavelmente abafada, limitante, vazia, sem novas alegrias.
Ser outra pessoa, fantasiada ou não. Aceitar o brilho como algo belo; a nudez como arte; a bebida como adereço obrigatório; o beijo, o amasso, aqui, ali e acolá, com ele, com ela, com eles, como um comportamento normal, que será apagado de uma história engravatada como se nunca tivesse acontecido.
Ser um pierrot, uma colombina. Fazer da criatividade a sua pele. Fazer da sua pele o que você sempre quis ser. Esquecer amores passados, dores latentes, por tempo determinado. Transformar o mascarado em seu novo amor, nem que seja por cinco minutos. Ou fazer da bela morena rebolativa sua própria rainha do Carnaval. Ou ainda, pular compassadamente com a alma gêmea, dentro e fora do salão.
O Carnaval nasceu muito antes de Cristo como festa pagã de agradecimento aos deuses pela fertilidade. Mais pra frente, tornou-se evento cristão, em que o pecado da alegria era cometido, mesmo não sendo aceito. Hoje, praticam-se pecados e a fertilidade é tema de súplicas – para que seja ignorada – na quarta-feira de cinzas.
O carnaval é colocar máscaras ou deixá-las cair. É não ter medo de brincar, de se metamorfosear, de correr atrás do trio elétrico. É jogar confete nas ruas. É decorar marchinhas. É momento de fazer o pandeiro tocar o coração. Ou apenas, é época de descanso, em que a felicidade maior é botar o pé na areia ou o corpo numa rede. É o feriado em que tudo é possível. É tempo de viajar - nem que seja para um mundo só seu.