Minta para mim

{ sexta-feira, 6 de setembro de 2013 }

Quando assistia esporadicamente à série de Samuel Baum, Lie to Me, na Fox, não imaginava que um dia, pós-abençoada Netflix, ficaria tão vidrada nos sinais da mentira. A série, cujo (anti)herói é o psiquiatra Cal Lightman, me desperta mais do que curiosidade sobre os curtos-circuitos que nosso corpo rebenta com lorotas, mas também uma certa ansiedade para desvendar vestígios de omissões tanto na série quanto na vida real, porém com subsídios científicos. Lightman é contratado pelo Governo para ajudar em casos delicados do FBI.
Obviamente, não dá para levar a ferro e fogo os sinais caricatos da série, mas estes são referências para que seres humanos mais observadores possam distinguir uma verdade, uma mentira por trás da verdade ou, simplesmente, uma mentira. Existem centenas de livros que abordam as expressões corporais - já li alguns - mas Lie to Me vai além: ensina que as microexpressões fornecem indícios de conversa fiada para boi dormir: pupilas dilatadas, lábios apertados, sorrisos falsos, sobrancelhas arqueadas.
Li que o mocinho rabugento da série foi inspirado num cientista, o psicólogo americano Paul Ekman, que provou que as expressões faciais são componentes da natureza humana e não reflexo da cultura de cada povo, ou seja, somos todos iguais na mentira – uns se saem melhores que os outros, óbvio, e acho que até isso se encaixa no que sugere a Lei de Darwin.
E outra coisa: todos nós mentimos, sem exceção. Mentimos para nos proteger, para proteger o próximo, para não nos expormos ou simplesmente porque queremos  mentir naquele momento e dane-se. E quando mentimos, nosso corpo borbulha involuntariamente e denuncia as emoções reais por trás de um discurso fajuto. Nosso físico não foi programado para mentiras. Nosso cérebro denuncia nossas pantomimas pois não foi programado para "lembrar" de algo que não é real. Nesses casos, Lightman é como um Dr. House, porém, um detetive diagnosticando lero-leros.
É sabido que não existem técnicas 100% confiáveis para detectar mentiras. Nem o polígrafo é tão eficiente. Nem uma vidente porreta teria esse dom espetacular de acertar na mosca cada bazófia. O cientista da série mesmo cai na maioria das engrupidas da filha adolescente. Porém, já bastante avançada na segunda temporada, ainda não vi nenhum menção ao sexto sentido feminino para mentiras – tirando nossos momentos de fraqueza em que apegos emocionais de qualquer espécie podem avariar nosso radar – nós mulheres temos lá uma sabedoria instintiva para detecção de balelas, seja lá por quem forem proferidas, né não? Talvez por isso, o tema tenha me atraído tanto; como diz a sabedoria popular: de vez em quando é importante que todos nós nos façamos de mortos para poder traçar o fiofó do coveiro.