Urgência

{ quinta-feira, 16 de janeiro de 2014 }
Seus corpos uniram-se pela primeira vez na praça da pequena cidade. Embaixo das bandeirolas, em uma noite de festa, ele a viu, com seu batom vermelho manchando o filtro do Marlboro.  Não tinha mais idade para os disparates físicos do amor: suas mãos não tremeram e seu estômago não gelou. Mas sentiu que seria ela que reavivaria sua alegria inerte há tanto tempo.
Foi ali que passara sua lua de mel, há quase 30 anos. O lugar não saia de sua cabeça desde a morte de seu par, há tempo suficiente para voltar, enfim, a sorrir.  Não tinha grandes pretensões quando largou tudo pra viver onde foi tão feliz. Só queria estar mais perto de um passado que não voltaria.
Até que ela, só ela, despertou nele o desejo de ser 20 anos mais novo. De nunca ter tido um pelo branco no peito. De jamais ter broxado. De seu Maverick preto impecável não ser uma relíquia, assim como ele, conservado, porém indiscutivelmente velho.
Mesmo inseguro, não hesitou.  Viu-a de costas, cabelos encaracolados despretensiosamente semipresos com grampos, cintura fina e bunda farta. Sua gargalhada, por mais espontânea que parecesse, escondia uma tristeza como a sua, já arraigada naquele 1,60m de mulher. O que teria se passado com ela? Querendo desvendá-la por inteiro, não resistiu: tocou em seus quadris e sussurrou ao pé daquela orelha bem desenhada, com o tom mais sacana que conseguiu.
- Dançaria com você até amanhã cedo. Aliás, com você, faria qualquer coisa até o amanhecer.
O bafo quente na nuca se misturou com a brisa calorosa daquela noite de verão. Ela jogou o cigarro no chão, pisando em cima em seguida, deixando em evidência seu lindo pé com dedos compridos e unhas vermelhas.
- Eu não durmo cedo mesmo!  – ela responde sem ao menos olhar quem estava segurando sua cintura, com mãos grandes e firmes. Virou-se, para espanto dos amigos e juntou-se ao homem mais velho, seguindo ordens de uma sensação angustiante que atormentou seu corpo. Sentiu-se plena ao olhar os olhos tristes daquele homem. Experimentou a proteção vinda de um desconhecido e ali fez seu abrigo, que não tinha em casa, distante daquele lugar.
 Dançaram e, por fim, amanheceram juntos, longe da inocência das bandeirolas. Não trocaram nomes e nem confidências; permutaram desejos urgentes de paixão e zelo. Naquela manhã praiana, seus corpos se uniram pela última vez na praça da pequena cidade em uma despedida que exalava amor e gratidão. Nunca mais se viram, mas sorriem verdadeiramente quando lembram um do outro.

2 palpites:

Chris Carolo disse...

Da série: E perguntar carece, como não fui eu que fiz???
Parabéns querida, lindo texto.
Beijocas

Lívia Komar disse...

Ahhh Chris, obrigada!!! <3

Postar um comentário