Pelo direito de escolher como meu filho virá ao mundo

{ sábado, 18 de julho de 2015 }

Ontem, às 26 semanas de gestação do meu pequeno grande bebê Matteo, eu e meu marido assistimos ao filme “O Renascimento do Parto”, de Érica de Paula e Eduardo Chauvet. A obra é um oásis de informação em meio ao medo justificável de algumas mulheres em relação ao “parto normal”, em que, salvo exceções, a pessoa é obrigada a ficar com as pernas abertas pro alto, sobem em sua barriga para agilizar os trâmites, cortam sua vagina pra “facilitar” a passagem do bebê, dão a ela hormônio sintético, usam o fórceps para que a criança saia de seu mundinho tão protegido para um universo de traumas e medo.

Quando ouço uma pessoa dizer que tem medo do parto normal, considero totalmente plausível: ninguém quer ser cortada e ter sua vida sexual comprometida, ter o esfíncter do ânus dilacerado ou uma série de outras violências obstétricas que costumamos ouvir de uma tia, da avó, da mãe, da amiga da vizinha. Óbvio que nem todo parto normal acontece dessa forma, mas, por mais que a ciência esteja avançada, ainda temos que nos deparar com tristes relatos que dão medo até a mais corajosa das criaturas.

Desde que fiz xixi naquela fita de farmácia e constatei minha gravidez naqueles dois risquinhos cor-de-rosa, no dia 20 de fevereiro, minha vida e minha cabeça mudaram: sabia que todas as decisões que eu tomasse daqui pra frente, envolveriam aquele ser que eu gerava. E comecei a estudar, antes mesmo da minha primeira consulta médica.

Decidi, então, com total apoio do meu marido, que optaria pelo parto humanizado. Como ele mesmo disse, o corpo é meu e a decisão deveria ser só minha. Era uma empolgação tão grande, uma responsabilidade tão gostosa ter a oportunidade de ler e estudar sobre o que poderia ser melhor para aquele serzinho que dependeria de mim desde então, que me afundei em livros, sites, blogs, tudo o que se possa imaginar: caberia a mim agir por ele, agir por nós.

Na primeira consulta de pré-natal após a ultrassonografia que determinou a idade gestacional, expressei à médica que me acompanhava há algum tempo, o meu desejo pelo parto natural e aí, veio o balde de água fria nos meus sonhos: meus três miomas (dois que surgiram após a gestação) e mais a minha idade “avançada” de 35 anos, talvez fossem sérios impedimentos para o tipo de parto que escolhi. “Mas vamos acompanhar, talvez você consiga”, foi a resposta que ouvi primeiro. "Com sua idade, devemos preservar esse feto visto que você poderá não ter a chance de ter outro", foi a frase que arrematou o desespero. Minha gravidez era considerada de risco e, a partir dali, deveria evitar até mesmo caminhadas.

Voltei para casa desolada. Aquelas palavras frias me chocaram tanto que não tinha mais possibilidade de voltar àquele consultório sem um pingo de desconfiança no disgnóstico. Naquele momento, o menor dos meus problemas seria o tipo de parto: eu só queria que meu bebê ficasse bem e que conseguisse ter uma gravidez segura, sem o risco de um parto prematuro causado pelos meus miomas, que poderiam crescer e, segundo a doutora, me causar hemorragias.

Entendo que houve um excesso de zelo e não julgo aqui a capacidade profissional da obstetra, no entanto, a linha de trabalho dela era incompatível com minhas crenças. Para uma pessoa saudável como eu e que se exercitava regularmente, era inconcebível em minha cabeça a ideia de que minha gestação pudesse ser tão arriscada da forma como me foi pintada. Por orientação de meu marido e de minha mãe (que me teve aos 42 anos), resolvemos buscar uma segunda opinião, decisão que transformou minha condição de fragilidade para uma fortaleza sem limites. Me tornei um bicho feroz lutando pelo que achei melhor para minha cria.

Já na primeira consulta deste novo médico, indicado por uma amiga adepta à humanização do parto, eu e meu marido saímos aliviados: meus miomas intramurais não estavam localizados em pontos de risco. Ali, eu já sabia exatamente o que o médico estava falando; havia estudado tanto que já era quase uma expert no assunto. E, segundo ele, meus 35 anos, obviamente, também não interfeririam em nada na minha gestação – coisa que eu já sabia. Alinhamos ali por trabalhar com a possibilidade de um parto natural, com privacidade, sem intervenções ou episiotomia, na posição que melhor me convier (na cama, na água, na bola, no chuveiro – eu tenho o direito de decidir na hora!), com a presença da equipe de profissionais que eu escolhi, liberando ocitocina natural e com o meu marido ao meu lado, mergulhando nas sensações de acompanhar o nascimento de seu bebê pelo tempo que for necessário, fortalecendo nossa relação familiar.

Depois de dois meses parada, voltei a me exercitar. Pausei o polefitness e optei pelo Pilates, que julgo mais adequado ao meu momento, pois me ajuda a alongar e a melhorar minhas dores nas costas. Além disso, a prática é super benéfica para quem opta pelo parto vaginal visto que trabalha força, respiração e o períneo. Voltei também às minhas sessões de drenagem linfática que não me deixam inchar. Passei então a ver a gravidez como a fase mais forte da vida da mulher e ganhei um poder sobrenatural sobre minha trajetória gestacional e meu corpo. Estou em paz, tranquila e segura. Quando me exercito, entro em sintonia com minha cria aqui dentro e sinto que meu bem-estar é a satisfação dele também. E isso pensando que, em um diagnóstico anterior que me tornaria um cálice de cristal, uma caminhada poderia ser abortiva.

Agora, é esperar outubro, mês que meu menino já tão amado deverá vir ao mundo e, em breve, já iniciarei junto ao meu médico o nosso plano de parto. Contei essa história apenas para dizer que informação é tudo. Não sou contra de maneira alguma a escolha de algumas mulheres pela cesárea, desde que haja embasamento nessa decisão ou justificativa médica real. A cesárea é uma cirurgia abençoada que salva vidas mas, a partir do momento que ela se torna desnecessária ou que antecipa o parto e o desenvolvimento do bebê em nome da comodidade do médico, deve ser repensada. Estou a um pouco mais da metade da minha gestação e se, de repente, meu médico de confiança e adepto ao parto natural optar por ela, é porque a cirurgia realmente será primordial e me sentirei segura em fazê-la, desde que seja de forma respeitosa e que meu bebê não passe pelo trauma da chegada ao mundo sem poder contar com o aconchego de sua mãe nas primeiras horas de vida.

Não considero que mães de cesárea sejam “menos mães”, como já ouvi por aí, e enxergo toda forma de generalização absurda, mas creio que a informação torne as mulheres "mais mães" ao optarem com embasamento por partos que sejam mais adequados para elas e para seus bebês. Encontrar um médico em sintonia com nossos desejos é o primeiro passo. 

A obra que cito lá em cima é realmente um bálsamo, algo que deveria ser passado nas escolas e transmitido na TV com frequência: é informativo e capaz de promover o choque de uma realidade camuflada por um sistema que preza o dinheiro acima do bem-estar da mulher e da criança.

Meu filho mudou minha vida e me transformou em mãe desde o primeiro segundo, naquela sexta-feira, a mais feliz desde que vim ao mundo. Minha missão é, em todos os momentos que ele precisar, me tornar uma leoa e tentar escolher sempre o que for melhor para ele. Que venha o Matteo em nossos braços da forma mais natural e instintiva possível, rodeado de amor desde seu nascimento.

Outras obras interessantes sobre maternidade:

- O Diário de Bordo da Família Grávida (Luciana Herrero)
- O Diário de Bordo do Parto (Luciana Herrero)
- A Maternidade e o encontro com a própria sombra (Laura Gutman)