Relato de uma cã-irmã

{ quinta-feira, 6 de agosto de 2015 }
Acordei um certo dia e senti minha mãe mais gordinha. E um pouco chata também. Meus pelos loiros até arrepiaram de medo do que estaria por vir. Ela não ficou distante comigo, mas eu percebi que alguma coisa iria mudar. E mudou. Conto aqui a história da espera pelo Matteo, meu irmão humano mais novo.

Naquele Carnaval, que meus pais saíram para curtir e me deixaram em casa, fiquei com vontade de avisar minha mãe que a roupa justa que ela estava usando ao se fantasiar de Bonequinha de Luxo, estava marcando a barriguinha; não estava legal. Mas não se fala isso pra uma mulher – neurótica, que ela não me leia! - e deixei ela viver o sonho. Papai e mamãe conseguiram curtir todos os dias de feriado e mamãe até bebeu cerveja. Mas lá, antes que eles pudessem imaginar, eu sabia: já tinha alguenzinho pulando junto naquela farra.

Minha mãe foi nas aulas de pole fitness também. Aprendeu até um movimento novo: o golfinho, em que fica de ponta cabeça e faz uma mega força nas pernas. Meu irmão já estava lá junto, sentindo vertigens, coitadinho. E a pressão da minha mãe, segundo ela, chegou até a cair. Meus pais sempre falam que os planos pra chegada do meu irmãozinho teriam início somente no fim do ano mas acho que ele foi apressado e, numa única “escapada”, veio para alegrar a festa já em fevereiro. Não sei bem o que significa “escapada” mas eles dizem que foi a melhor da vida deles.

Só sei que vejo todo mundo super animado com a chegada do baby mas confesso que preferia tudo como estava. Estou até tomando calmante pois tenho tentado chamar mais a atenção de todos do que a própria barriga enorme da minha mãe – antes mesmo de estar gigante porque nós, cachorros, sabemos de tudo e eu já sentia meu novo irmão lá dentro desde quando ele se instalou ali de vez. Teve uns dias aí que meu xixi chegou a escapar e meu pediatra, o tio Alexandre, que vem em casa, disse que eu estava muito triste. Uma boa dose de Fluoxetina mais as conversas e o carinho de meus pais, têm feito eu aceitar melhor a chegada de um novo membro reinando no meu reinado.

Agora, quando minha mãe está cansada, sou eu que faço companhia a ela... deito junto e aprecio meu irmão mexer com minha cabecinha no ventre dela. Cantamos todos a música da gravidez – sim, tem até isso agora aqui em casa, blé! Em várias tardes, dormimos agarradas e compartilhamos esse momento família, só nós três. Queria poder lavar uma louça ou estender uma roupa pra ajudar, mas já estou colaborando e muito fazendo meu coco no lugar certo. 

Estou me acostumando, mas já vou avisando: nada impede que quando meu pai acaricie barriga da minha mãe, eu enfie minha cabeça embaixo da mão dele, afinal, cheguei primeiro e tenho meus direitos caninos sobre meus papis. Minha outra irmã que não mora aqui, a Duda, parece estar curtindo mais essa história de “irmãozinho”. Já eu, taurina e até então o bebezinho da casa, não abro mão da atenção que conquistei.

Gostaria muito de saber se quando eu nasci foi essa frescura toda: papelzinho de parede no quarto, sapatinhos de todas as cores, calça jeans em tamanho miniatura, ultrassons emocionantes, ensaios fotográficos profissionais – que até me enfiaram no meio, bercinho cheio de nhenhenhém – tudo bem que cama eu tive, apesar de ter comido ela, mas não me lembro de ter conquistado outros tantos privilégios como esse menininho.

Sei dizer que minha mãe acha que não, mas anda bem estranha: só fala no Matteo: entra no quarto dele e fica admirando tudo, igual um cachorro na máquina de frango. Às vezes está eufórica. Outras, chora sozinha. Sente sono, insônia, cansaço, dores nas costas, reclama que nada cabe nela, mas sei que, no fundo, ama estar carregando meu irmão. Em algumas situações, fica irritada com meu pai e ele a chama de “orquinha”, aperta seu umbigo proeminente e garante que tudo ficará bem. Ela também fica feliz quando chegam as encomendas da China ou dos EUA que nós duas vamos lá retirar na portaria: o moleque nem nasceu e já tem mais roupa que meu pai. E eu aqui, com minhas três ou quatro coleiras...

Enfim, sei dizer que estou tentando me adaptar a essa nova fase, mas está difícil. Primeiro, éramos nós quatro dormindo juntos, cheios de calor humano – e canino, no meu caso. Depois, ela expulsou meu pai que, coitado, é grande e ocupa muito espaço. Agora, sobrou até pra mim que, segundo ela, “fico fazendo barulhinhos com a boca” e me exilou também. Ela só quer saber de Matteo, Matteo, Matteo, enquanto a nós, sobra o sofá duro pra ela poder ficar espalhada naquela cama enorme e quentinha SOZINHA!

Rola um ciuminho, confesso, mas como toda irmã mais velha, tenho que ser madura. Não falo nada pra manter minha pose, mas tenho certeza que quando esse menininho chegar no meu castelo, ele também será o meu rei e cuidarei dele com todo amor e proteção. É de minha natureza ser amorosa e quando aquele serzinho menor que eu entrar pela porta da minha casa, ficarei louca pra enchê-lo de lambidas de boas-vindas.Talvez, na calada da noite e escondida dos meus pais, até darei um jeito de dormir naquele berço macio juntinho dele.

Florinda Paçoca